16.3.17


Desenterrar cadáveres



Falava toscamente
a língua do seu tempo.
Tacteava, improvisava.
Sabia de quem fosse capaz de moldar as palavras a uma imagem
do mundo, de ajustar o mundo para que coubesse nessas palavras.
Eram poucos, invejava-os.
A maior parte limitava-se a tomá-las por
terapia de substituição. Nunca o eram
e eles acabavam por se cobrir com elas
como quem recolhe a roupa dos mortos.
Revolviam a terra com as ferramentas
que tinham à mão, pás, dedos, dentes,
despiam o cadáver,
sagrado só o suficiente para ser profanado,
expunham o espólio como coisa própria.
Cheiravam, não havia água que os lavasse,
mas habituavam-se
como se habituavam ao bafio das casas alugadas
e ao odor rançoso dos seus corpos.
Sem isso, não seriam capazes de se suportarem.