16.7.17

Da utilidade da arte




Ao fim da tarde,
abriu as janelas para que a casa arrefecesse.
A do quarto, virada a poente, e a da sala, do lado oposto.
Prendeu a porta com os livros que tinha à cabeceira.
O Dom Quixote, edição Relógio d’Água,
tradução de José Bento.
A Ilíada, edição Cotovia, tradução de Frederico Lourenço.
O quinto volume do Em Busca do Tempo Perdido, edição
Relógio d’Água, tradução de Pedro Tamen.
O vento atravessava o quarto, pressionava a porta e arrastava os livros.
Tornou a abri-la, o vento tornou a arrastá-los.
Três volumes pesados, do melhor que o mundo soubera produzir.
A imaginação e a ironia, a coragem e a morte, o desejo e a perda,
e no entanto não suportavam a força de uma leve brisa.
Ofendiam-na. Tinha-os comprado, tinha-os transportado,
tinha-os lido,
ganhara o direito de lhes pedir mais.
Exigir-lhes se não o peso das palavras, o do tempo,
se não o da literatura, o do papel, o do cartão, o da tinta de impressão,
o da transpiração que se pegava às páginas.
Acrescentou a Poesia Toda. Nada.
A porta continuava a fechar-se.
Acabou por desistir e prendeu-a com uma cadeira.