30.3.18


A glória da Casa de Este


Havia uma coisa que não compreendia
(haveria
muitas coisas que não compreendia, não
o ignorava, mas daquela dava-se conta):
como é que acabara ali?
Estava a afundar-se,
via-o,
dia após dia, sem mover uma mão,
um pé, uma palavra. Caminhava na lama
e a lama era mais do que a mistura de terra com água,
era a mistura do tempo com as imagens, das coisas
com as palavras,
da carne com a fome que a sugaria.
E a lama (anagrama de alma, era evidente, não
exigia nenhuma exegese) não permitia mais
do que patinhar sobre o seu próprio sangue.
Seria aceitável, a queda, se alguma coisa antes,
algo depois (o corpo, a voz, a sombra),
pudesse permanecer no lugar do embate.
Se o chão, o solo, a terra, o pavimento,
não a engolisse como engole a água.