24.5.18


O tempo, a carne e outras figuras da imaginação


Sem querer confundir as coisas
com as explicações que delas ouvia
(se as primeiras eram medíocres, as segundas
apenas insignificantes),
notava como cada época tendia a medir
os actos públicos pela moral privada,
e os actos privados pela moral pública.
Calculavam, na cama, o que mal
caberia no meio da rua, avaliavam, na praça,
o concavo das coxas e o movimento dos quadris.
A mesma moral
(ética, decoro, decência, ou seja, uma forma de higiene)
deveria reger
o interior dos corpos e o exterior da história.
Em ambos, a obrigação de purgar os olhos
e a língua, o pensamento e as mãos,
a carne e as representações.
O que não se lavasse deveria ser escondido:
por detrás
da roupa, por detrás dos olhos,
por detrás
de todas as figuras da
imaginação.

(E isto talvez constituísse o ponto de partida para
uma teoria da arte.
Esclareceria,
no mínimo, a improvável persistência das palavras
no século das imagens.
A improvável opacidade das imagens
no tempo de toda a visibilidade).