29.5.15

Papel de impressão





Talvez não fosse branca o suficiente.
Não apenas a pele, pálida, os olhos claros,
o cabelo castanho, mas a alma.
Faltava-lhe a segurança de se sentir segura,
de saber quem era e onde
se situavam as margens.
Talvez não fosse lúcida o suficiente.
Faltava-lhe o mate e a textura das fibras de celulose,
a capacidade de se fazer cama para as artes-gráficas.
Empapava.
Não tinha outro corpo. Não tinha outra respiração.
Trazia o nome tatuado na testa.
Quatro sílabas húmidas a alastrar
para a nuca, daí para as costas, para as nádegas,
confundindo a forma e o fundo na mancha de tinta
sobre o papel.
Cobria-lhe a cara, o peito, penetrava-lhe pelos orifícios.
Mas talvez não fosse negra o suficiente.
Não bastava despir-se.
Há muito que todos tinham visto tudo.
Deveria gritar.
Abrir a boca e deixar que a tinta lhe escorresse da língua
como a baba do tempo a sepultar a história.




14.5.15



Tradition and the Individual Talent


Sentia-se ela própria a alimentar-se de restos.
A esperar pela noite e a vasculhar no lixo
as palavras impróprias para consumo. Teriam de servir.





5.5.15



Perjúrio e plectro



À boca o que é da boca.
À carne o que é da carne.
Às coisas, como à carne, basta ter dentes.
Não o ignorava.
Sabia que supunham, e que ela própria o supunha,
que compreendia aquilo que dizia.
Que para cada palavra haveria outras,
conscientes mas na sombra,
e que era sobre a sombra que se sustentavam,
os pés assentes nos alicerces firmes
de um chão de páginas.
Vinha dizer que não. Não compreendia.
Abria os olhos, fechava-os, calava-se, dizia três palavras.
Acrescentava outras duas.
Não havia mais nada.
Nua e crua,
cada palavra era menos do que uma casca seca.
E se projectava som, forma ou volume,
fazia-o porque ecoava oca no seu próprio vazio,
menos profunda do que o côncavo cavo dos orifícios.
Nem poros, nem ouvidos, nem boca, nem cona.
Nenhuma carne, nenhum corpo, nenhuma miséria
em que pudesse tocar.
Não sim, não não, não interior,
não órgãos, não nada que valesse o risco
de acordar descalçada no meio da rua.



28.4.15



Língua lúcida


Prescindia do pathos, não da prosa.
Prescindia do dom, do véu, da opacidade,
do tom profético de quem quer da língua o que lá não cabe.
Bastava-lhe o que era, como era, colada às coisas, 
desprovida de peso, de cheiro, ou de som. 
Bastava-lhe, lúcida, uma língua limpa
para mostrar sem sombras o que o mundo não é: limpo e língua.



24.4.15


Identidade corporativa



Não um nome, um número,
mas um género. Os atributos próprios
de quem não tem outros. Os seus
e os das outras.
Partilhava a carne, distinguia-se no uso.
Por vezes, no espelho, não havia mais
do que uma cabra estéril sem quem a cobrisse.
Estado e condição.
Sabia a sua idade,
mais velha do que no ano anterior, mas não tão velha
que não temesse envelhecer.
Tinha o tempo contado.
Conhecia a sua função social. Não a rejeitava.
Precisava apenas de ajustar o corpo
e a vontade, e dar-se ao  trabalho de
encontrar quem quisesse ocupar-lhe as coxas
e depois demorar-se
o tempo suficiente para  pagar as contas.
Não esperava outro reconhecimento.




22.4.15


Random forest


Um erro de cálculo.
Hesitava uns segundos
e acabava com as mãos na lama.
À sua frente, o futuro.
Era suportável.
Alto, magro, escuro
como uma ameaça que, sem sujeito,
varia em tempo e em número,
e olha de olhos secos o seu próprio fim.
Não terá outro.




16.4.15



A obra-prima desconhecida



Conseguia ver-se de olhos fechados. Um pé,
o princípio da perna, o resto perdia-se
no emaranhado de carne,
de roupa e de representação.
Mas conseguia ver-se,
tocar-se enquanto se perguntava
pela correspondência
entre a mão que toca e a pele que sente.
Quem é que toca, quem é que sente,
se o dedo se aquilo que recebe o dedo.
Conseguia ouvir-se, cega,
como se se ouvisse, devolvida aos tímpanos,
no ruído fóssil do seu próprio corpo. Rude,
grosseiro, gutural, reverberando rouco
numa agonia de álcool pela garganta.
Conseguia, enfim, declarar-se por
detrás das pálpebras,
como se soubesse que o que os dedos vêem
os olhos não sentem. A boca não cala.
Haja ou não quem veja.




10.4.15



Terror e piedade



Tinha vindo vê-la.
Mais de dois mil quilómetros,
dez horas de viagem, com a ligação em Londres.
Quando saiu do avião, não tinha ninguém à espera.
Encontrou-a à tarde, na morada indicada.
Viu-a abrir-lhe a porta e recuar.
Uma semana depois, de regresso a Lisboa,
não conseguiu contar o que tinha visto.
O quê, quem. 
Reconhecera-a, mas não era a mesma.
Envelhecida, o olhar febril,
a roupa a cair do corpo como papel rasgado
a soltar-se das paredes. O cabelo sujo.
Durante horas, mal articulava duas palavras,
as sílabas comidas, numa mistura inquieta
de português e de inglês
na qual quase não conseguia encontrar sentido.
À noite,
ouvia-a uivar, debruçada à janela,
a convocar lobos ou a lamentar-se à lua.
Só lhe respondiam as sirenes dos carros da polícia
e os gritos dos bêbados dos viadutos.
Uma manhã, 
com os olhos pisados e os lábios em sangue,
pediu-lhe que a ouvisse.
Demorara dois meses a decorar a Poética de Aristóteles.
Tradução portuguesa.





17.10.14


Auto-censura


Por si, por vezes, se não cerrasse os dentes,
não sobraria uma frase.