16.7.17

Da utilidade da arte




Ao fim da tarde,
abriu as janelas para que a casa arrefecesse.
A do quarto, virada a poente, e a da sala, do lado oposto.
Prendeu a porta com os livros que tinha à cabeceira.
O Dom Quixote, edição Relógio d’Água,
tradução de José Bento.
A Ilíada, edição Cotovia, tradução de Frederico Lourenço.
O quinto volume do Em Busca do Tempo Perdido, edição
Relógio d’Água, tradução de Pedro Tamen.
O vento atravessava o quarto, pressionava a porta e arrastava os livros.
Tornou a abri-la, o vento tornou a arrastá-los.
Três volumes pesados, do melhor que o mundo soubera produzir.
A imaginação e a ironia, a coragem e a morte, o desejo e a perda,
e no entanto não suportavam a força de uma leve brisa.
Ofendiam-na. Tinha-os comprado, tinha-os transportado,
tinha-os lido,
ganhara o direito de lhes pedir mais.
Exigir-lhes se não o peso das palavras, o do tempo,
se não o da literatura, o do papel, o do cartão, o da tinta de impressão,
o da transpiração que se pegava às páginas.
Acrescentou a Poesia Toda. Nada.
A porta continuava a fechar-se.
Acabou por desistir e prendeu-a com uma cadeira.



11.7.17


Minima moralia


Capaz de perguntar o que é que permanece por detrás da pergunta.
O que é que na fé denuncia a dúvida.
O que é que na resposta lhe esmurra o rosto como uma rajada.



13.6.17


Das Schweigen von Marcel Duchamp wird überbewertet



Não tinha tempo,
dizia,
mas o não ter tempo era a parte pequena
da justificação. Não pretexto como
não desculpa, e escusava-se só
porque o que ouvia do que diziam à sua volta
chegava para fechar a porta, as janelas,
desligar o telefone, dar por finda a conta sem contrição.
Não como a poesia que fala de poesia
porque há muito perdeu outro propósito,
não como a literatura que se pretende espelho do mundo
sem já ser capaz de se ver a si mesma,
não como aquilo a que chamam arte
e que vive apenas do nome que lhe dão.
Não como carne, como coisa,
não poeta, não autor, não artista.
Não, nada, nunca mais.

Não só falta de tempo, mas de paciência.






6.6.17


The lands where the lemons grow


Via-os, em pleno Inverno,
maduros como a carne no calor
de Agosto.
Via-os, abrigo para cães acorrentados,
os ramos
entre os troncos de palmeiras mortas,
adossados aos muros das traseiras,
no meio de detritos de demolições.
Secos
e desleixados, na ignorância de quem
não merece o que tem e protesta,
com a boçalidade dos analfabetos,
não ter o que merece.



30.5.17


Silent Spring


Não o DDT ou as alterações climáticas.
Seriam, se as soubesse,
alterações da alma, no século dezasseis,
alterações do humor,
no século dezoito, alterações algures no coração,
se escrevesse no dezanove,
alterações do corpo, num século vinte
que só acreditava no que via,
ou alterações somente, neste tempo de quem confunde
o possível com o necessário, o obstáculo com a imposição.
Bastava-lhe
o ter havido corpo, que inibia o corpo,
o ter havido morte, que promete morte. Ou outra alteração

um tudo-nada apenas mais pequena.


27.4.17


Desvio para o vermelho


Notava que a distância produzia
distância.
Poderia medi-la, analisá-la,
concluir que entre si e os outros
já não existia medida comum.
Nada havia nisso de ideológico
ou de preferência cromática.
Era o próprio tempo que a repelia.



3.4.17


Primula Vulgaris


Todos os anos,
pelo princípio da Primavera,
supunha que essa seria a última.
Sê-lo-ia, de facto.
A doença de uns não era
remissível pela dor dos outros,
e a tradução apenas
transportava entre línguas
o mesmo lamacento mal-entendido.
Sabia-se ferida.
Atolava-se já no próximo Inverno.



30.3.17


Brexit


Sairia como quem entrou,
relutante,
para se servir
do que o dinheiro pudesse pagar.
Não queria gastar muito.
Sairia como quem se sente apertado
apesar do espaço se ter entretanto tornado mais largo,
no corpo cediço de fêmea seca e de fertilidade duvidosa.
Sairia como quem se limpa para arrancar da pele
o que restou da carne.
À sua volta,
as coisas continuariam como nunca foram.
No cálculo do esforço e do prazer,
tão gastas coxas só prometiam trabalho.
Na história, como nas putas, paga-se sempre,
use-se ou não.



16.3.17


Desenterrar cadáveres



Falava toscamente
a língua do seu tempo.
Tacteava, improvisava.
Sabia de quem fosse capaz de moldar as palavras a uma imagem
do mundo, de ajustar o mundo para que coubesse nessas palavras.
Eram poucos, invejava-os.
A maior parte limitava-se a tomá-las por
terapia de substituição. Nunca o eram
e eles acabavam por se cobrir com elas
como quem recolhe a roupa dos mortos.
Revolviam a terra com as ferramentas
que tinham à mão, pás, dedos, dentes,
despiam o cadáver,
sagrado só o suficiente para ser profanado,
expunham o espólio como coisa própria.
Cheiravam, não havia água que os lavasse,
mas habituavam-se
como se habituavam ao bafio das casas alugadas
e ao odor rançoso dos seus corpos.
Sem isso, não seriam capazes de se suportarem.




9.3.17


Prova de vida


Talvez a única forma de existir fosse ser
tributável,
fazer-se acompanhar de um documento
de identidade,
do contrato de arrendamento, do extracto bancário,
expor-se em palco nos festivais da moda.
Talvez, haveria quem pagasse,
frequentar os frequentáveis,
ser conhecida dos conhecidos,
tornar o mundo mais evidente,
fazendo parte do pequeno mundo.
Toda a gente, sabia-se, conhecia toda a gente.
Toda gente, supunha, excluía sempre
os excluídos.
Não se propunha contrariá-lo.



3.3.17

24.2.17



National Gallery


A arte, temia,
seria a história do desencontro trágico
entre o desejo e o corpo,
entre quem mostra e quem vê,
entre quem escreve e quem lê.
A história, talvez, do encontro feliz
do negreiro com o escravo,
da ostentação com a miséria,
da carne da vítima com o aço do agressor.
Da fome, da cegueira, da admissão da impotência.
Do pavor de haver apenas trevas para arrojar à luz.



25.1.17


Antologia toda


Restavam-lhe menos do que oito anos.
Ninguém que quisesse merecer o respeito de ser
poeta 
poderia chegar aos quarenta sem uma antologia
de, no mínimo, quatrocentas páginas.
Obra, dobra, cobra, as palavras que
nunca te direi ou outro título a meio caminho
entre a ironia e o arrebatamento lírico.
Chegaria lá,
bastar-lhe-ia ser metódica, fria e determinada.
Se não aos quarenta, aos quarenta e cinco,
aos cinquenta, na vaidade póstuma de quem
há anos deixou de ter o que dizer.
Não lhe faltaria muito.




11.1.17


Nua e crua


Sabia que olhavam para si
com a atenção suja
que se dedica aos vizinhos da frente.
Ao homem, à mulher, à filha mais velha,
à miséria de uns e à ingenuidade dos outros,
espreitando-lhes a intimidade pela fenda
da janela entreaberta.
Os passos entre a sala e a cozinha, entre o quarto
e a casa de banho, a televisão, o álcool, o tabaco,
o vai e vem inquieto no colchão,
os corpos nus, as discussões,
o sangue e a violência se se tivesse sorte.
Sabia-o, desejava-o,
mostraria o que houvesse para mostrar.
Talvez estivesse a ser usada, mas queria crer
que ela mesma usava aqueles que a liam.

Não conhecia, em literatura,
outro fim, outra estratégia ou outra moral.




5.1.17


Médicos


Preferia os homens às mulheres,
os oftalmologistas aos de clínica geral,
os ginecologistas aos psiquiatras (ambos se baixavam
para espreitarem para dentro dela, mas os primeiros
eram mais eficazes),
os dermatologistas aos de medicina interna.
Agradavam-lhe os anestesistas, os cirurgiões plásticos,
os pediatras,
mas sobretudo os cardiologistas. Diante destes,
de peito aberto e coração nas mãos,
via-se sempre disponível para acreditar
(reconhecia-se mais romântica do que para si própria
poderia admitir).
Meia mentira seria suficiente.



21.12.16


Lavandaria Lusitana


Davam-lhe vómitos. Todos.
Os evidentes e os obscuros, os traduzidos e os ignorados,
os premiados, os ressentidos, os que escreviam
contra a lógica e os que esbracejavam contra a língua,
os homens, as mulheres, os novos, os velhos,
os consagrados, as promessas, os carecas, os tatuados,
as desleixadas e as meninas bem.
Levavam-se sempre demasiado a sério, 
confundindo as palavras com o umbigo e a literatura com
um livro de reclamações, no qual garatujavam
uma meia dúzia de banalidades que tinham lido algures
e desde então tomavam por expressão, exigindo para si
um direito que não reconheciam aos outros
e de que se mostrariam incapazes de fazer uso,
percorrendo as linhas com a ponta do dedo,
na veneração de analfabetos
que constatam os caracteres, sem reconhecerem o sentido,
e admitem respeitosamente a existência de uma gramática
que não compreendem e que nunca saberão contestar.
Lia-os por obrigação, desistia depressa.
Não via invenção, mas erros de perspectiva, 
não via transgressão, mas incorrecções ortográficas, 
falhas de concordância
em género e número, tempo, modo e tudo
quanto pudesse tornar-se disforme.
E também ela,
fruto do mesmo buraco que os tinha parido,
não faria diferente.
Abria a mesma boca, usava a mesma língua,
engolia com a mesma garganta.
Limparia ela própria o seu vomitado.



16.12.16


Princípios


Nenhum mal que a moral
não saiba punir,
nenhuma dor que uns quantos comprimidos
não possam apagar,
nenhuma doença que a cirurgia e a amputação
não venham resolver.
Nunca nada que a morte reconheça.



7.12.16


Restriction du domaine de la lutte



Com tempo e determinação, talvez se conseguisse
transformar a vítima em agressor,
trocar a miséria de uns pela miséria dos outros,
fazer do poder humilhação, da soma
da dor de uns o sofrimento dos restantes.
Talvez, ela própria, do oprimido o opressor.
Ver-se-ia enfim do lado certo da história,
mas o mundo permaneceria tão repugnante quanto antes.
Continuaria, pela manhã,
a ver-se ao espelho sem gostar do que via.
Na distribuição da fome e da violência, tratar-se-ia só
de tirar a uns para dar aos outros.
E ela não se via em nenhum dos lados.



30.11.16


Spear-won land


A boca, a cona, o pensamento.



25.11.16


Kosher


A fome não tem lei, comeria de tudo.
O sangue, as sobras, o permitido e o proibido.
Preferiria o porco, as ostras, preferiria os frutos
dos primeiros anos,
misturaria quanto conseguisse misturar.
O leite com a carne, a carne com o peixe,
o corpo com o corpo dos gentios.
Nunca ninguém é ímpio o suficiente
para saber ser santo. Aceitaria
um mundo manuseado por outras mãos,
nenhuma mais pura, nenhuma mais impura
do que a impureza de se ser humano.
Tinha os cascos fendidos, mas recusaria
estender a garganta para o sacrifício.
Teria sido inútil.
Depois de aberta, seria rejeitada
porque imprópria para consumo.



16.11.16


Antropomorfismo


Sabia que os deuses (quais e quem,
no nome próprio que significa ninguém),
sabia que os deuses, repetiu,
fariam sua a forma que via no espelho.
Sabia que o mundo (como e onde,
no nome de quem sobrevive a ninguém),
sabia que o mundo, repetiu,
só era visível segundo os seus olhos.
Aceitaria a forma que eles lhe dessem.
Carne antes de poder ser corpo,
órgão antes de saber ser mulher,
causa, fim, função.
Saberia falhar quando todos falhassem,
ver-se-ia cair quando todos caíssem.
Rejeitava a regra, mas não seria excepção.



14.11.16


Figuras do quotidiano V


Manchester, dois mil e dezasseis.
Uma perda não se ultrapassa, atravessa-se,
cola-se à carne como as coisas à lama.
Aborto espontâneo. Estava novamente grávida,
eram quase vinte semanas,
mas não conseguia contá-lo a ninguém. Já não se perguntava
o que via ou o que não via, o que sentia ou o que não sentia,
mas onde é que isso
(o que tinha e o que não tinha, o que esperava e o que temia)
se acumulava para produzir sangue.
Correria entre as pernas.