10.10.18

Heteropatriarcado branco



Não moveria um dedo,
crítica e cínica
como quem pergunta
pela virtude dos anjos.
Pela das mulheres.




2.10.18


Inquérito


Se algum dia alguém
lhe perguntasse
(a imprensa cor de rosa, a academia, as publicações
tão especializadas que só os próprios liam),
teria agradecido e respondido: não.
Era o que pensava: não.
Não,
primeiro,
porque pensar já é transpor para palavras
o que mal se apreende com o coração
(a pele, o olhar, o órgão que se quiser:
o que não compreendera antes,
não compreenderia agora).
Não,
depois,
porque o que lhe perguntavam
(se lhe perguntassem,
se alguém se lembrasse da sua existência,
se ela própria
chegasse a existir como coisa pública),
na forma e no conteúdo, não
teria tradução para a sua língua. Parecia a mesma,
configuração, textura, gramática, mas seria
apenas por convergência evolutiva.
Eram incompatíveis.
Não,
por fim,
porque três letras e um til
já era quatro vezes mais do que aquilo que
tinha para dizer.
Sabia, além disso, que só perguntavam (se perguntassem)
porque de facto já conheciam a resposta. Não aceitariam outra.





26.9.18

Quarto escuro


Nenhuma palavra,
começava a ser claro,
teria por si própria o direito à existência.
Nenhuma palavra, nenhuma imagem,
nenhum som, nenhuma cor.
Em cada momento era necessária
uma prova de vida. Uma marca
que assegurasse o seu direito
a um lugar no pouco a que chamava
mundo.
Um fim, um uso, uma valia,
na cadeia de causas e de efeitos
com os quais tentava evitar que
o céu cedesse sobre a sua cabeça.



21.9.18


A Origem do Mundo (d'après Courbet)


Muda e obediente,
mostraria tudo o que houvesse a mostrar.
Haveria o que ver: a língua ali
de quantos nela ou noutra se tinham afundado.
O português materno e
o inglês barato da globalização,
o francês nostálgico de todas as revoluções e
o alemão romântico,
onde em Goethe ressoam já os cães de Buchenwald,
o castelhano de Cortéz e de Pizarro,
o italiano de Florença, o latim do Império,
o cuneiforme dos escribas,
os balbucios lúcidos dos analfabetos,
as línguas putrefactas dos deserdados de babel.
Permanecia imóvel,
aguardaria que a fixassem bem:
continuava intacta. Poderiam confirmá-lo
com a própria língua.
A cada nome a mesma
sugestão de recomeço.
Um pouco como mudar de cama,
à espera que outro corpo possa alcançar 
o que os anteriores tinham falhado.




16.9.18

Iluminações 


Plural, singular,

a quem culpar da raiva que lhe cobre a pele.
Vítima, agressora,
a quem cuspir que o escarro não lhe caia na cara.
A boca, os olhos,
os orifícios fáceis do costume.
Nenhuma luz que a noite
não possa apagar. Nenhuma
mais que a treva não venha assombrar.




13.9.18

A missão da arte

Nenhuma.
E quanto mais depressa o admitisse,
mais próxima estaria
de aceitar que perdera.
Tinha perdido desde o primeiro dia.
A excepção de hoje seria a norma da geração seguinte,
tempo a partir do qual,
já sem a obrigação de prosseguir a correcta direcção da história,
poderiam desfazer-se do pouco que restasse dos seus ossos.




12.9.18

Carpe diem

A noite, supunha, a noite.
Entre apagar a luz e acordar sozinha na cama vazia.
A censura dos dias a correr-lhe nas coxas.




11.9.18

Et in Arcadia ego

Um mundo que se abria na cona do mundo. Um
lugar baixo e fundo, onde língua e morte se fodiam para
produzir dois versos. Três.




9.8.18

Terapia da fala


Não pediria a nenhuma palavra que dissesse o
que ambas ignoravam.
Levantaria a voz, mas
falaria apenas o tempo indispensável
para permitir que alguém a mandasse calar.
Baixaria os olhos
e aceitaria a censura:
nunca ninguém diz nada
que ouvidos surdos não possam ouvir.

(quanto aos que agora exigiam que se calasse,
os mesmos que a aceitavam
enquanto não passava de uma fêmea amável,
a quem aproveitavam para espreitar o decote
e com quem podiam ser benevolentes,
será que se ouviriam a si mesmos?
leriam o que eles próprios escreviam?
conseguiriam não corar de vergonha?)




3.8.18

Opus Caementicium

Reconhecer as ruínas, dar-lhes um nome,
um uso, uma função,
sabendo (supondo, desejando, temendo)
que por detrás do tempo somente tempo,
e depois deste apenas a promessa da derrocada.




24.5.18


O tempo, a carne e outras figuras da imaginação


Sem querer confundir as coisas
com as explicações que delas ouvia
(se as primeiras eram medíocres, as segundas
apenas insignificantes),
notava como cada época tendia a medir
os actos públicos pela moral privada,
e os actos privados pela moral pública.
Calculavam, na cama, o que mal
caberia no meio da rua, avaliavam, na praça,
o concavo das coxas e o movimento dos quadris.
A mesma moral
(ética, decoro, decência, ou seja, uma forma de higiene)
deveria reger
o interior dos corpos e o exterior da história.
Em ambos, a obrigação de purgar os olhos
e a língua, o pensamento e as mãos,
a carne e as representações.
O que não se lavasse deveria ser escondido:
por detrás
da roupa, por detrás dos olhos,
por detrás
de todas as figuras da
imaginação.

(E isto talvez constituísse o ponto de partida para
uma teoria da arte.
Esclareceria,
no mínimo, a improvável persistência das palavras
no século das imagens.
A improvável opacidade das imagens
no tempo de toda a visibilidade).




22.5.18



Maio de dois mil e dezoito


Contra quanto tinham por evidência,
já não duvidava
que isso a que insistiam em chamar poesia
há muito não passava da ocupação torpe
de velhos e de adolescentes. Mulheres
de rugas fundas e peito caído, miúdas
de pele escamada e olhos também eles
envelhecidos. Homens humilhados,
a segurarem as calças e a cobrirem
com palavras a sua impotência.
De si mesma, suspeitava que entre
a puberdade e a menopausa
nem uma só página a faria fértil.





30.3.18


A glória da Casa de Este


Havia uma coisa que não compreendia
(haveria
muitas coisas que não compreendia, não
o ignorava, mas daquela dava-se conta):
como é que acabara ali?
Estava a afundar-se,
via-o,
dia após dia, sem mover uma mão,
um pé, uma palavra. Caminhava na lama
e a lama era mais do que a mistura de terra com água,
era a mistura do tempo com as imagens, das coisas
com as palavras,
da carne com a fome que a sugaria.
E a lama (anagrama de alma, era evidente, não
exigia nenhuma exegese) não permitia mais
do que patinhar sobre o seu próprio sangue.
Seria aceitável, a queda, se alguma coisa antes,
algo depois (o corpo, a voz, a sombra),
pudesse permanecer no lugar do embate.
Se o chão, o solo, a terra, o pavimento,
não a engolisse como engole a água.






13.3.18


Da oferta e da procura


Supunha, simplesmente (e simplesmente
era aqui um recurso retórico, não havia nisto
nada de simples), supunha, pois, que pese embora
séculos de instrução, décadas de emancipação (as quais,
de forma desigual, haviam feito do corpo das fêmeas
um espaço de disputa e de conflito), não lhe sobrava senão
olhar em volta e aceitar as regras. As do mercado (que
regulam os corpos e os valores) e as da carne (que
regulam a fome e a satisfação).
Quem define a lei, sabia-o (fora à escola, tinha lido
três livros, alguma coisa teria aprendido),
produz a perversão.
Quem aceita o jogo, temia-o, assume como sua a punição.
Não o contestaria.





3.3.17

30.11.16


Spear-won land


A boca, a cona, o pensamento.