20.6.18

Índice anotado: Joaquim Manuel Magalhães


Nenhuma palavra diria mais do que a anterior. Nenhuma menos.
Entre dizer e calar, o intervalo sugava o mundo.



19.6.18

Índice anotado: José Miguel Silva


Afinal não muito distinguível. Um tudo nada menos intermutável, mas o mesmo
eu, o mesmo tu, o mesmo nós onde talvez não coubesse ninguém.





18.6.18

Índice anotado: Jorge Gomes Miranda


Teria as mesmas qualidades dos outros.
Com ou sem elas. A mesma mastigada misantropia.




17.6.18

Índice anotado: João Luís Barreto Guimarães


Estaria a caminho de se promover poeta consagrado
de alguma coisa. Merecê-lo-ia.




16.6.18

Índice anotado: Jaime Rocha


Quem sabe se, da sombra, algum dia língua.
Quem sabe se, na sombra, se afundava nela.






15.6.18

Índice anotado: João Miguel Fernandes Jorge


Tinham-na prevenido quanto a poetas de quatro nomes.
Fora em vão. Há anos que lhe elaborava a antologia.




14.6.18

Índice anotado: Hélia Correia


A língua
lúcida e límpida como um lençol de linho.



13.6.18

Índice anotado: H. G. Cancela


Desfizera as dúvidas: qualquer que fosse o risco,
acabaria na cama dele.



12.6.18

Índice anotado: Gonçalo M. Tavares


Reconhecia-lhe a capacidade de enunciar o óbvio
sob a forma de paradoxo. A capacidade do óbvio.



11.6.18

Índice anotado: Golgona Anghel


Suficientemente impertinente. Gostaria de a ver. De trocar três palavras,
num exercício lúcido de auto-punição.


10.6.18

Índice anotado: Gastão Cruz


Haveria um autor, algures, por entre as páginas
das primeiras décadas. Depois, pose e literatura.



9.6.18

Índice anotado: Frederico Pedreira


Tinha gostado do Um Bárbaro em Casa. Não pelo bárbaro, não pela
casa, mas pela insolência. O resto, temia, arriscava-se a ser mais do mesmo.




8.6.18

Índice anotado: E. M. de Melo e Castro


Durante uns meses, uma vez por semana, cruzara-se com ele no comboio. Ninguém
se dava conta. Era lamentável como a época não reconhecia os clássicos.





7.6.18

Índice anotado: Dulce Maria Cardoso


Era uma mulher. Não havia muitas. Mas nada que fosse
motivo de orgulho.




6.6.18

Índice anotado: Diogo Vaz Pinto


Bastaria metade do que ouvira dizer. Outro tanto
o que lia. Perguntava-se de onde lhe viria a virulência.




5.6.18

Índice anotado: Daniel Jonas



Dedicava-lhe o uso, não a norma. Consagrava-lhe a norma,
não as margens. Preso do que as palavras pudessem dizer.




4.6.18

Índice anotado: Bernardo Pinto de Almeida


Havia alguma coisa de comovente:
não escondia a ambição.



3.6.18

Índice anotado: Bénédicte Houart


Vira-a uma vez, numa leitura pública. Por momentos pensara poder ser
ela. Escrever talvez fosse, como o menor dos erros, escolher onde cair.



Índice anotado: Alberto Pimenta


(Simplesmente não sabia o que dizer. Talvez há muito não
senão curiosidade.)




2.6.18

Índice anotado: Afonso Cruz



Tinha decidido excluí-lo.




1.6.18

Índice anotado: António Barahona



Esperava, com inquietação, o anúncio da sua morte
e ressurreição.




31.5.18

Índice anotado: Ana Luísa Amaral



Perguntava-se, apenas, se não se perguntava
se valia a pena. Se tanta poesia já não enjoava.




30.5.18

Índice anotado: Adília Lopes



Sequer original rimar poesia com patologia, mas para original
já bastava a Adília. Ninguém suportaria outra na família.





29.5.18

Índice anotado: Ana Teresa Pereira



No quem é quem da pequena vaidade,
nenhum nome mais se aproximava de não ser ninguém.




28.5.18

Índice anotado: António Lobo Antunes



Admitia-lhe o mérito de desprezar todos quantos não fossem ele próprio.
Lê-lo-ia se ele dedicasse a si mesmo ao menos metade desse desprezo.




27.5.18

Índice anotado: Agustina Bessa Luís


Escrevia, rasurava. Das formas possíveis de procriação,
esta talvez fosse a mais aceitável.





26.5.18

Índice anotado da literatura portuguesa: António Franco Alexandre



Uma vez, roubara-lhe um verso. Ninguém reparara, e ela mesma,
mais tarde, se dera conta que o resultado não compensara o risco.





24.5.18


O tempo, a carne e outras figuras da imaginação


Sem querer confundir as coisas
com as explicações que delas ouvia
(se as primeiras eram medíocres, as segundas
apenas insignificantes),
notava como cada época tendia a medir
os actos públicos pela moral privada,
e os actos privados pela moral pública.
Calculavam, na cama, o que mal
caberia no meio da rua, avaliavam, na praça,
o concavo das coxas e o movimento dos quadris.
A mesma moral
(ética, decoro, decência, ou seja, uma forma higiene)
deveria reger
o interior dos corpos e o exterior da história.
Em ambos, a obrigação de purgar os olhos
e a língua, o pensamento e as mãos,
a carne e as representações.
O que não se lavasse deveria ser escondido:
por detrás
da roupa, por detrás dos olhos,
por detrás
de todas as figuras da
imaginação.

(E isto talvez constituísse o ponto de partida para
uma teoria da arte.
Esclareceria,
no mínimo, a improvável persistência das palavras
no século das imagens.
A improvável opacidade das imagens
no tempo de toda a visibilidade).




23.5.18


Estratégias de sobrevivência


No plano da palavra,
aceitava todas as que lhe dessem.
Os nomes, os adjectivos, os modos
mais fáceis de qualificar o inqualificável.
No plano da imagem,
tapava os espelhos
e todas as formas de reprodução.

Ao princípio da noite, por puro desleixo,
abriria as pernas.
Melhor mulher
do que morta,
melhor puta do que
divorciada,
melhor em rima
do que calada.




22.5.18



Maio de dois mil e dezoito


Contra quanto tinham por evidência,
já não duvidava
que isso a que insistiam em chamar poesia
há muito não passava da ocupação torpe
de velhos e de adolescentes. Mulheres
de rugas fundas e peito caído, miúdas
de pele escamada e olhos também eles
envelhecidos. Homens humilhados,
a segurarem as calças e a cobrirem
com palavras a sua impotência.
De si mesma, suspeitava que entre
a puberdade e a menopausa
nem uma só página a faria fértil.





15.5.18


Amor profano


Como não ter o desinteresse por desdém,
a distância por desprezo,
o silêncio por insulto,
consciente e deliberado?
A indiferença por humilhação?
Como saber de quem, depois de entrar,
nos cospe na cara e nos limpa ao lençol?




13.4.18


Avec le temps



Via em volta como
os melhores da sua época
se iam corrompendo num conservadorismo
sem consciência. Confundiam a crítica com
a desilusão e mediam o mundo com os critérios
da geração anterior.
Dariam por eles, se ainda lhes restasse lucidez,
apontados a dedo pela geração seguinte.
Esta, nem melhor nem pior,
era apenas diferente, ajustada a um tempo
que era sempre outro. Demoraria ainda
até que também ela
medisse o mundo
com os critérios da geração anterior.






30.3.18


A glória da Casa de Este


Havia uma coisa que não compreendia
(haveria
muitas coisas que não compreendia, não
o ignorava, mas daquela dava-se conta):
como é que acabara ali?
Estava a afundar-se,
via-o,
dia após dia, sem mover uma mão,
um pé, uma palavra. Caminhava na lama
e a lama era mais do que a mistura de terra com água,
era a mistura do tempo com as imagens, das coisas
com as palavras,
da carne com a fome que a sugaria.
E a lama (anagrama de alma, era evidente, não
exigia nenhuma exegese) não permitia mais
do que patinhar sobre o seu próprio sangue.
Seria aceitável, a queda, se alguma coisa antes,
algo depois (o corpo, a voz, a sombra),
pudesse permanecer no lugar do embate.
Se o chão, o solo, a terra, o pavimento,
não a engolisse como engole a água.






23.3.18



Concordância de género


Por detrás de cada grande homem,
ouvira dizer,
estava sempre uma grande mulher. Por detrás
de cada grande mulher, seria provável,
haveria sempre um grande homem.
Olhava em volta e não via nenhum,
nem antes nem após.
Ninguém para a empurrar, ninguém
atrás de quem se pudesse esconder.
Era apenas ela,
tão crua quanto a roupa que tinha despido.
Baça, suja e sem
valer o trabalho de a apanhar do chão.

(Ou talvez,
e esse seria o seu problema,
não houvesse nela nada de grande.
Nem as mãos, nem as mamas,
nem a boca, nem a cona,
nem o tempo, nem a escrita.
A mediocridade, sabia-se,
tem-se sempre a si mesma
como termo de comparação.)




21.3.18


Enjambement

Demorara a compreender de quem
eram as pernas.
Se as suas, flexíveis e receptivas,
se as deles, duras como alavancas a
moverem o mundo.





13.3.18


Da oferta e da procura


Supunha, simplesmente (e simplesmente
era aqui um recurso retórico, não havia nisto
nada de simples), supunha, pois, que pese embora
séculos de instrução, décadas de emancipação (as quais,
de forma desigual, haviam feito do corpo das fêmeas
um espaço de disputa e de conflito), não lhe sobrava senão
olhar em volta e aceitar as regras. As do mercado (que
regulam os corpos e os valores) e as da carne (que
regulam a fome e a satisfação).
Quem define a lei, sabia-o (fora à escola, tinha lido
três livros, alguma coisa teria aprendido),
produz a perversão.
Quem aceita o jogo, temia-o, assume como sua a punição.
Não o contestaria.





7.3.18


Diagnóstico


A poesia,
sabia-se,
é uma patologia própria da idade.
Manifesta-se aos quinze, dezasseis,
e aos vinte atinge um pico de virulência.
Depois, nuns desaparece sem deixar marcas,
noutros transforma-se numa doença crónica.
Suporta-se, por vezes com dor, mas não
compromete as actividades quotidianas.
Nos casos mais agudos,
raros e pouco esclarecidos,
pode incapacitar de forma irreversível.
Há perigo de contágio, mas não são claros os indícios
quanto
aos riscos de transmissão por hereditariedade.
Por precaução,
aconselha-se a manter os filhos afastados
das fontes de contaminação.





3.3.17

30.11.16


Spear-won land


A boca, a cona, o pensamento.