9.12.16

Panavision



Já há muito que lhe era indiferente. O que dizia,
e o que não dizia, o que mostrava e o que escondia.
Fosse o que fosse,
tê-lo-ia já lido em outro lugar, tê-lo-ia já visto,
algures entre o álbum de retratos de família,
as notícias da BBC e as páginas do Pornhub.
Andava, há mais tempo do que poderia admitir,
a dar por garantido o que nem sequer sabia situar.
Onde, quando, quem,
talvez ela mesma. Mentia, simulava,
era suficientemente convincente para se poder enganar.
Mas a náusea que sentia diante de si própria
era a parte mais pequena do nojo com que olhava
à sua volta.
Carne por carne preferiria a sua.
Podia reprimi-la, podia castigá-la, podia aguardar
que o medo e a moral fizessem o seu trabalho.
Não os reprimiria.
Precisaria apenas de esclarecer quanto é que estava
disposta a apagar, o que é que pediria para se dar a ver.
Já não se perguntava se aceitava vender-se, mas por quanto,
a quem, supondo possível que algures nos olhos
de quem pagava
pudesse produzir-se uma revelação.
Mostrava o que não tinha, talvez alguém visse
aquilo que ela mesma não chegara a sentir.



7.12.16

Restriction du domaine de la lutte



Com tempo e determinação, talvez se conseguisse
transformar a vítima em agressor,
trocar a miséria de uns pela miséria dos outros,
fazer do poder humilhação, da soma
da dor de uns o sofrimento dos restantes.
Talvez, ela própria, do oprimido o opressor.
Ver-se-ia enfim do lado certo da história,
mas o mundo permaneceria tão repugnante quanto antes.
Continuaria, pela manhã,
a ver-se ao espelho sem gostar do que via.
Na distribuição da fome e da violência, tratar-se-ia só
de tirar a uns para dar aos outros.
E ela não se via em nenhum dos lados.



5.12.16


Figuras do quotidiano IX


Madrid, dois mil e dezasseis.
O filho não era seu, repetiu
enquanto os polícias o algemavam.
Atrás dele, no carro,
a mulher não era de ninguém.
A garganta rasgada
e o sangue a somar-se ao sangue
de todas as outras.



2.12.16


Tolerância


Estava disponível,
declarava-o para registo e uso futuro,
estava disponível, sublinhava, a aceitar
que os outros fossem o que deveriam ser.
Os homens, homens e as mulheres, mulheres,
os brancos, brancos e os pretos, pretos.
As árabes, os asiáticos, os judeus.
A cada um segundo o seu lugar
e a sua condição. Não os discutiria.



30.11.16


Spear-won land


A boca, a cona, o pensamento.



27.11.16


Figuras do quotidiano VIII


Sudão do Sul, dois mil e dezasseis.
A lei e o caos são privilégios dos homens.
A carne morta abunda, e as mulheres
são mais úteis mantendo-se quentes.

Deram-lhe a escolher.



25.11.16


Kosher


A fome não tem lei, comeria de tudo.
O sangue, as sobras, o permitido e o proibido.
Preferiria o porco, as ostras, preferiria os frutos
dos primeiros anos,
misturaria quanto conseguisse misturar.
O leite com a carne, a carne com o peixe,
o corpo com o corpo dos gentios.
Nunca ninguém é ímpio o suficiente
para saber ser santo. Aceitaria
um mundo manuseado por outras mãos,
nenhuma mais pura, nenhuma mais impura
do que a impureza de se ser humano.
Tinha os cascos fendidos, mas recusaria
estender a garganta para o sacrifício.
Teria sido inútil.
Depois de aberta, seria rejeitada
porque imprópria para consumo.



23.11.16


Figuras do quotidiano VII


Leicester, dois mil e dezasseis.
Quando finalmente
telefonou para as urgências, disseram-lhe
que a ambulância poderia demorar.
Respondeu que não se preocupassem,
o namorado saberia esperar.
Ela já tinha retirado a faca do peito dele,
bastaria aguardar que o sangue deixasse de correr.



21.11.16


Supremacia branca


Nunca teriam, ou talvez tivessem,
sentido um negro por eles dentro. Um negro,
um indiano, um asiático, um branco, na mesma carne
que dá sempre menos do que promete.
Não havia diferença.
Nunca teriam, ou talvez tivessem,
visto a vergonha de se estar vivo só
por ter nascido,
de fechar os olhos e supor possível revirar a pele
como se revira uma camisola que se vestiu do avesso,
para mostrar na rua já não uma cor, mas o medo,
as vísceras, a alma, o sangue seco da expiação.
Nunca teriam, e talvez não o suportassem,
sentido o nojo do seu próprio cheiro. Os pés,
a boca, o baixo ventre, 
as banhas flácidas e
a pele rosada de quem nunca chegou a deixar a pocilga.



18.11.16


Figuras do quotidiano VI


Londres, dois mil e dezasseis.
Vinte e duas semanas, lixo hospitalar,
o critério era cru e burocrático, mas funcional.
Impunha, para se ser aceite como ser humano,
um mínimo de vinte e quatro semanas, ou ter respirado
entre abandonar o ventre e penetrar na morte.
A filha não cumpriu nenhum dos critérios, deixando-a,
aos dezassete anos, com a vida desfeita
e a obrigação de lhe pagar um funeral.
Não teria direito a ajudas públicas. Para a burocracia,
a criança era lixo, carne destinada a ser incinerada
com os restantes detritos orgânicos.
Membros amputados, tumores removidos, órgãos rejeitados,
tudo aquilo que, já não sendo humano,
era patológico o suficiente para constituir perigo.




16.11.16


Antropomorfismo


Sabia que os deuses (quais e quem,
no nome próprio que significa ninguém),
sabia que os deuses, repetiu,
fariam sua a forma que via no espelho.
Sabia que o mundo (como e onde,
no nome de quem sobrevive a ninguém),
sabia que o mundo, repetiu,
só era visível segundo os seus olhos.
Aceitaria a forma que eles lhe dessem.
Carne antes de poder ser corpo,
órgão antes de saber ser mulher,
causa, fim, função.
Saberia falhar quando todos falhassem,
ver-se-ia cair quando todos caíssem.
Rejeitava a regra, mas não seria excepção.



14.11.16


Figuras do quotidiano V


Manchester, dois mil e dezasseis.
Uma perda não se ultrapassa, atravessa-se,
cola-se à carne como as coisas à lama.
Aborto espontâneo. Estava novamente grávida,
eram quase vinte semanas,
mas não conseguia contá-lo a ninguém. Já não se perguntava
o que via ou o que não via, o que sentia ou o que não sentia,
mas onde é que isso
(o que tinha e o que não tinha, o que esperava e o que temia)
se acumulava para produzir sangue.
Correria entre as pernas.



13.11.16


Teoria da Paisagem


O mundo, sabia-o,
subestima sempre o quanto é difícil desenhar o mundo. 




11.11.16


Figuras do quotidiano IV


Durham, dois mil e quinze.
Enforcou-se às onze da noite.
Depois do parto regressara à prisão. No dia anterior
vira recusada a visita ao hospital onde se conservava
a criança.
Não voltaria a vê-la. Quando deixasse o hospital
desapareceria entregue para adopção.
Pertencera-lhe durante nove meses,
deixara de ser sua quando lha extraíram do ventre.
Sentia-o oco, permaneceria vazio.
De todas as dependências, álcool, ácidos ou heroína,
o bebé era a única cuja privação não soube suportar.
Desapareceria, ela própria,
no buraco aberto entre as suas coxas.



9.11.16


O que há a fazer

Por-lhe a mão entre as pernas,
agarrar-lhe os tomates e atirá-lo ao lixo
como a um rato morto.
Desviar os olhos por pudor.

(Sim, o Donald)


7.11.16



Ela mesma, o mal


Sabia o que não era, mas durante dias
dizia
eu, eu, eu, como o nome morto de uma moeda
colada à língua.




4.11.16


Figuras do quotidiano III


Birmingham, dois mil e quinze.
Simplesmente não suportou.
Uma manhã deixou-se ficar na cama e, depois de semanas
fechado no quarto, soube que tinha sido despedido.
Foi despejado após três meses sem pagar a renda.
A primeira noite passou-a nas traseiras de uma loja, sentia
que tinha desaparecido.
No gabinete de apoio municipal disseram-lhe que
não constituía prioridade.
Não era alcoólico, toxicodependente, não havia crianças.
Durante duas semanas vagueou pela cidade. Acabou
num descampado à espera de se esconder o bastante
para que ele próprio pudesse não se ver.
Mas nunca ninguém morre porque decide
deixar de respirar,
e nunca ninguém é baço o suficiente para ser transparente.




2.11.16



Bagagem de porão

 
Cabia em duas malas. Não se referia às coisas,
roupa, livros, fotografias, mas à sua vida.
Ela mesma, pés, pernas, tronco, braços, cabeça.
Seria necessário desmembrar e repartir,
o tronco numa mala, as pernas,
a cabeça na outra, acomodada entre
a dobra dos braços e a roupa de verão.
Ainda
sobraria espaço para o livro de instruções.
Talvez mais tarde alguém
quisesse tornar a tentar montá-la.