24.2.17

National Gallery



A arte, temia,
seria a história do desencontro trágico
entre o desejo e o corpo,
entre quem mostra e quem vê,
entre quem escreve e quem lê.
A história, talvez, do encontro feliz
do negreiro com o escravo,
da ostentação com a miséria,
da carne da vítima com o aço do agressor.
Da fome, da cegueira, da admissão da impotência.
Do pavor de haver apenas trevas para arrojar à luz.



22.2.17


Hacker


Quando reparou que lhe tinham pirateado
a palavra passe
há meio ano que não abria o blogue.
Reparou, estupefacta,
que o que alguém escrevera sob o seu nome
era quase o que ela poderia teria escrito
se,
entre dar entrada no hospital e regressar a casa,
tivesse tido forças para o fazer.

Queria agradecer-lhe.




18.2.17

Paixão



Tinha lido, tinha ouvido dizer, tinha visto no cinema,
sem distinguir o que era a fome da carne
e o peso dos olhos.
Tinha, ela mesma, morrido duas vezes.
Não sabia o que fosse.
Incomodavam-na mais
as certezas dos outros do que as suas próprias dúvidas,
e incomodavam-na tanto mais
quanto pretendessem responder às suas perguntas.
Nunca respondiam.



31.1.17


Arrepio

No momento seguinte
não havia mais nada. Não havia mais ninguém.



25.1.17


Antologia toda


Restavam-lhe menos do que oito anos.
Ninguém que quisesse merecer o respeito de ser
poeta 
poderia chegar aos quarenta sem uma antologia
de, no mínimo, quatrocentas páginas.
Obra, dobra, cobra, as palavras que
nunca te direi ou outro título a meio caminho
entre a ironia e o arrebatamento lírico.
Chegaria lá,
bastar-lhe-ia ser metódica, fria e determinada.
Se não aos quarenta, aos quarenta e cinco,
aos cinquenta, na vaidade póstuma de quem
há anos deixou de ter o que dizer.
Não lhe faltaria muito.




22.1.17


Mar do Norte


Não e não
e nada e de cada vez que levanta os olhos
tem à sua frente a mesma massa mole
que lhe encharca os pés.
Não queria confundir, mas confundia,
o mundo com aquilo que via dele.
Não queria misturar, mas misturava,
a língua com o uso que fazia dela.
Avança dois passos,
hirta,
mais muda do que a água, mais fria
do que o frio
que lhe prende as pernas.
Não queria conceder, mas concedia,
que não era senão o que sabiam dela.



11.1.17


Nua e crua


Sabia que olhavam para si
com a atenção suja
que se dedica aos vizinhos da frente.
Ao homem, à mulher, à filha mais velha,
à miséria de uns e à ingenuidade dos outros,
espreitando-lhes a intimidade pela fenda
da janela entreaberta.
Os passos entre a sala e a cozinha, entre o quarto
e a casa de banho, a televisão, o álcool, o tabaco,
o vai e vem inquieto no colchão,
os corpos nus, as discussões,
o sangue e a violência se se tivesse sorte.
Sabia-o, desejava-o,
mostraria o que houvesse para mostrar.
Talvez estivesse a ser usada, mas queria crer
que ela mesma usava aqueles que a liam.

Não conhecia, em literatura,
outro fim, outra estratégia ou outra moral.




6.1.17

Projectos editoriais


Para sua satisfação e salubridade,
verificava que, de acordo com o Público,
no ano que agora se iniciava
não estava prevista, em Portugal, a  publicação
de qualquer livro de poesia.
Talvez, afinal, o país ainda tivesse salvação.



5.1.17


Médicos


Preferia os homens às mulheres,
os oftalmologistas aos de clínica geral,
os ginecologistas aos psiquiatras (ambos se baixavam
para espreitarem para dentro dela, mas os primeiros
eram mais eficazes),
os dermatologistas aos de medicina interna.
Agradavam-lhe os anestesistas, os cirurgiões plásticos,
os pediatras,
mas sobretudo os cardiologistas. Diante destes,
de peito aberto e coração nas mãos,
via-se sempre disponível para acreditar
(reconhecia-se mais romântica do que para si própria
poderia admitir).
Meia mentira seria suficiente.



25.12.16


Natal em Portugal

Um tempo fantástico para jogar ao elástico.



24.12.16


A vítima Maria

Qualquer que fosse a versão da história,
se a concepção sem consentimento é violação,
tinha sido violada.



21.12.16


Lavandaria Lusitana


Davam-lhe vómitos. Todos.
Os evidentes e os obscuros, os traduzidos e os ignorados,
os premiados, os ressentidos, os que escreviam
contra a lógica e os que esbracejavam contra a língua,
os homens, as mulheres, os novos, os velhos,
os consagrados, as promessas, os carecas, os tatuados,
as desleixadas e as meninas bem.
Levavam-se sempre demasiado a sério, 
confundindo as palavras com o umbigo e a literatura com
um livro de reclamações, no qual garatujavam
uma meia dúzia de banalidades que tinham lido algures
e desde então tomavam por expressão, exigindo para si
um direito que não reconheciam aos outros
e de que se mostrariam incapazes de fazer uso,
percorrendo as linhas com a ponta do dedo,
na veneração de analfabetos
que constatam os caracteres, sem reconhecerem o sentido,
e admitem respeitosamente a existência de uma gramática
que não compreendem e que nunca saberão contestar.
Lia-os por obrigação, desistia depressa.
Não via invenção, mas erros de perspectiva, 
não via transgressão, mas incorrecções ortográficas, 
falhas de concordância
em género e número, tempo, modo e tudo
quanto pudesse tornar-se disforme.
E também ela,
fruto do mesmo buraco que os tinha parido,
não faria diferente.
Abria a mesma boca, usava a mesma língua,
engolia com a mesma garganta.
Limparia ela própria o seu vomitado.



19.12.16


Figuras do quotidiano X


Londres, dois mil e dezasseis.
Três anos depois,
acreditava que o filho
fora a melhor coisa que lhe acontecera na vida.
Já não lamentava não o ter trocado na maternidade.



16.12.16


Princípios


Nenhum mal que a moral
não saiba punir,
nenhuma dor que uns quantos comprimidos
não possam apagar,
nenhuma doença que a cirurgia e a amputação
não venham resolver.
Nunca nada que a morte reconheça.



14.12.16


Pergunta

Em quem vive da voz,
ficar calado é direito ou dever? Cedência ou provocação?



12.12.16



Distopia

Quem dá, quem tira, quem promete, quem suspende.




9.12.16


Panavision


Já há muito que lhe era indiferente. O que dizia,
e o que não dizia, o que mostrava e o que escondia.
Fosse o que fosse,
tê-lo-ia já lido em outro lugar, tê-lo-ia já visto,
algures entre o álbum de retratos de família,
as notícias da BBC e as páginas do Pornhub.
Andava, há mais tempo do que poderia admitir,
a dar por garantido o que nem sequer sabia situar.
Onde, quando, quem,
talvez ela mesma. Mentia, simulava,
era suficientemente convincente para se poder enganar.
Mas a náusea que sentia diante de si própria
era a parte mais pequena do nojo com que olhava
à sua volta.
Carne por carne preferiria a sua.
Podia reprimi-la, podia castigá-la, podia aguardar
que o medo e a moral fizessem o seu trabalho.
Não os reprimiria.
Precisaria apenas de esclarecer quanto é que estava
disposta a pagar, o que é que pediria para se dar a ver.
Já não se perguntava se aceitava vender-se, mas por quanto,
a quem, supondo possível que algures nos olhos
de quem pagava
pudesse produzir-se uma revelação.
Mostrava o que não tinha, talvez alguém visse
aquilo que ela mesma não chegara a sentir.



7.12.16


Restriction du domaine de la lutte



Com tempo e determinação, talvez se conseguisse
transformar a vítima em agressor,
trocar a miséria de uns pela miséria dos outros,
fazer do poder humilhação, da soma
da dor de uns o sofrimento dos restantes.
Talvez, ela própria, do oprimido o opressor.
Ver-se-ia enfim do lado certo da história,
mas o mundo permaneceria tão repugnante quanto antes.
Continuaria, pela manhã,
a ver-se ao espelho sem gostar do que via.
Na distribuição da fome e da violência, tratar-se-ia só
de tirar a uns para dar aos outros.
E ela não se via em nenhum dos lados.



5.12.16


Figuras do quotidiano IX


Madrid, dois mil e dezasseis.
O filho não era seu, repetiu
enquanto os polícias o algemavam.
Atrás dele, no carro,
a mulher não era de ninguém.
A garganta rasgada
e o sangue a somar-se ao sangue
de todas as outras.



2.12.16


Tolerância


Estava disponível,
declarava-o para registo e uso futuro,
estava disponível, sublinhava, a aceitar
que os outros fossem o que deveriam ser.
Os homens, homens e as mulheres, mulheres,
os brancos, brancos e os pretos, pretos.
As árabes, os asiáticos, os judeus.
A cada um segundo o seu lugar
e a sua condição. Não os discutiria.



30.11.16


Spear-won land


A boca, a cona, o pensamento.



27.11.16


Figuras do quotidiano VIII


Sudão do Sul, dois mil e dezasseis.
A lei e o caos são privilégios dos homens.
A carne morta abunda, e as mulheres
são mais úteis mantendo-se quentes.

Deram-lhe a escolher.



25.11.16


Kosher


A fome não tem lei, comeria de tudo.
O sangue, as sobras, o permitido e o proibido.
Preferiria o porco, as ostras, preferiria os frutos
dos primeiros anos,
misturaria quanto conseguisse misturar.
O leite com a carne, a carne com o peixe,
o corpo com o corpo dos gentios.
Nunca ninguém é ímpio o suficiente
para saber ser santo. Aceitaria
um mundo manuseado por outras mãos,
nenhuma mais pura, nenhuma mais impura
do que a impureza de se ser humano.
Tinha os cascos fendidos, mas recusaria
estender a garganta para o sacrifício.
Teria sido inútil.
Depois de aberta, seria rejeitada
porque imprópria para consumo.



23.11.16


Figuras do quotidiano VII


Leicester, dois mil e dezasseis.
Quando finalmente
telefonou para as urgências, disseram-lhe
que a ambulância poderia demorar.
Respondeu que não se preocupassem,
o namorado saberia esperar.
Ela já tinha retirado a faca do peito dele,
bastaria aguardar que o sangue deixasse de correr.



21.11.16


Supremacia branca


Nunca teriam, ou talvez tivessem,
sentido um negro por eles dentro. Um negro,
um indiano, um asiático, um branco, na mesma carne
que dá sempre menos do que promete.
Não havia diferença.
Nunca teriam, ou talvez tivessem,
visto a vergonha de se estar vivo só
por ter nascido,
de fechar os olhos e supor possível revirar a pele
como se revira uma camisola que se vestiu do avesso,
para mostrar na rua já não uma cor, mas o medo,
as vísceras, a alma, o sangue seco da expiação.
Nunca teriam, e talvez não o suportassem,
sentido o nojo do seu próprio cheiro. Os pés,
a boca, o baixo ventre, 
as banhas flácidas e
a pele rosada de quem nunca chegou a deixar a pocilga.



18.11.16


Figuras do quotidiano VI


Londres, dois mil e dezasseis.
Vinte e duas semanas, lixo hospitalar,
o critério era cru e burocrático, mas funcional.
Impunha, para se ser aceite como ser humano,
um mínimo de vinte e quatro semanas, ou ter respirado
entre abandonar o ventre e penetrar na morte.
A filha não cumpriu nenhum dos critérios, deixando-a,
aos dezassete anos, com a vida desfeita
e a obrigação de lhe pagar um funeral.
Não teria direito a ajudas públicas. Para a burocracia,
a criança era lixo, carne destinada a ser incinerada
com os restantes detritos orgânicos.
Membros amputados, tumores removidos, órgãos rejeitados,
tudo aquilo que, já não sendo humano,
era patológico o suficiente para constituir perigo.




16.11.16


Antropomorfismo


Sabia que os deuses (quais e quem,
no nome próprio que significa ninguém),
sabia que os deuses, repetiu,
fariam sua a forma que via no espelho.
Sabia que o mundo (como e onde,
no nome de quem sobrevive a ninguém),
sabia que o mundo, repetiu,
só era visível segundo os seus olhos.
Aceitaria a forma que eles lhe dessem.
Carne antes de poder ser corpo,
órgão antes de saber ser mulher,
causa, fim, função.
Saberia falhar quando todos falhassem,
ver-se-ia cair quando todos caíssem.
Rejeitava a regra, mas não seria excepção.



14.11.16


Figuras do quotidiano V


Manchester, dois mil e dezasseis.
Uma perda não se ultrapassa, atravessa-se,
cola-se à carne como as coisas à lama.
Aborto espontâneo. Estava novamente grávida,
eram quase vinte semanas,
mas não conseguia contá-lo a ninguém. Já não se perguntava
o que via ou o que não via, o que sentia ou o que não sentia,
mas onde é que isso
(o que tinha e o que não tinha, o que esperava e o que temia)
se acumulava para produzir sangue.
Correria entre as pernas.



11.11.16


Figuras do quotidiano IV


Durham, dois mil e quinze.
Enforcou-se às onze da noite.
Depois do parto regressara à prisão. No dia anterior
vira recusada a visita ao hospital onde se conservava
a criança.
Não voltaria a vê-la. Quando deixasse o hospital
desapareceria entregue para adopção.
Pertencera-lhe durante nove meses,
deixara de ser sua quando lha extraíram do ventre.
Sentia-o oco, permaneceria vazio.
De todas as dependências, álcool, ácidos ou heroína,
o bebé era a única cuja privação não soube suportar.
Desapareceria, ela própria,
no buraco aberto entre as suas coxas.



9.11.16


O que há a fazer

Por-lhe a mão entre as pernas,
agarrar-lhe os tomates e atirá-lo ao lixo
como a um rato morto.
Desviar os olhos por pudor.

(Sim, o Donald)


7.11.16



Ela mesma, o mal


Sabia o que não era, mas durante dias
dizia
eu, eu, eu, como o nome morto de uma moeda
colada à língua.




2.11.16



Bagagem de porão

 
Cabia em duas malas. Não se referia às coisas,
roupa, livros, fotografias, mas à sua vida.
Ela mesma, pés, pernas, tronco, braços, cabeça.
Seria necessário desmembrar e repartir,
o tronco numa mala, as pernas,
a cabeça na outra, acomodada entre
a dobra dos braços e a roupa de verão.
Ainda
sobraria espaço para o livro de instruções.
Talvez mais tarde alguém
quisesse tornar a tentar montá-la.