15.2.26

Mitologias


Conta-se como
(número de Fevereiro da Gardens Illustrated,
texto de James Horner, fotografia de
Richard Bloom) Umberto Pasti,
escritor italiano a viver em Tanger,
adormecera há um quarto de século,
sob uma figueira
numa colina sobranceira ao mar.
Ao acordar, olhara em volta e vira
o que havia a fazer. Comprara
as terras áridas e ao longo das décadas
construíra um jardim.
Caminhos abertos, muros erguidos,
árvores transplantas à força de mulas.
As plantas prosperavam.
Abundavam as espécies nativas,
os Iris tingitana, os Iris filifolia,
os Narcissus obsoletus. As suculentas vindas
do outro extremo de África
ou do lado de lá do Atlântico.
Como todos os mitos, a história tinha tanto
de verdade como de efabulação,
de registo como de prescrição.
De promessa, de facto. Uma forma de moral.




14.2.26

Habitar-lhe o ventre


Havia um vazio nas dobras do mundo.
Seria o seu lugar.




13.2.26

Descrição sumária da infelicidade


Aprendera a cair
nos primeiros passos. 
Onde ficava o corpo, o chão, 
a fome que formava uma espécie de pele.
Nunca teria outra. Nascia-lhe da boca.
Expunha-lhe as feridas, secava-lhe o sangue,
comia-lhe a carne. 
Olhava em volta e via
que ninguém vira. Saberia o que
se acumulava na ponta dos dedos.
Via como o pé tacteava o nada.
Pisava, parecia-lhe, os seus próprios olhos.




12.2.26

Das größte Kunstwerk aller Zeiten und Völker


Referia-se ao mal, à mentira.
À própria possibilidade de escolher.
Não havia escolha.
Aceitava a sua simulação.

11.2.26

E viria um vento na ordem do tempo


Sem saber o que casa, o que cama,
e a que corpo chamar casa,
e a que cama chamar corpo.
Chamava-lhe amor,
mas nunca nada cabe apenas num nome.