Aceitaria o simulacro.
Eleonora de Fonseca Pimentel
18.3.26
16.3.26
Matar 50 mil soldados por mês
E no final da guerra
(ou no final dos tempos —
os termos talvez fossem
intermutáveis)
as mães dos mortos hão-de
fazer fila em frente
do senhor Putin
(e dos outros, e dos outros)
e cuspir-lhe na cara.
12.3.26
Teoria do poder
Pôr uma porta na boca das fêmeas
(feminina, na tradução da Tatiana Faia
— estará mais correcto,
mas é menos eficaz,
o feminino não é animal o suficiente,
sujo o suficiente. Agressivo,
se tiver de ser)
tem sido um importante projecto
da cultura patriarcal
desde a antiguidade até ao presente, escreve
Anne Carson. O som da voz
das mulheres seria ofensivo, como ofensivo
tudo aquilo que elas expelem do corpo.
As vergonhas guardam-se
debaixo da saia,
os olhos, debaixo das pálpebras,
a ignorância, debaixo da língua.
Uma exigência legítima. Manda quem pode
e pode quem manda.
Era uma norma de civilização.
Uma porta na boca, pois, uma porta nas coxas,
e guardar a chave por entre as pernas – as deles.
11.3.26
Evol (Adrianne Lenker)
Saberia soletrar,
sílaba a sílaba,
até que o som tivesse
perdido o peso
(Mas a desconstrução,
diria Derrida,
não é o movimento superveniente
de decompor o todo, devolvendo-o
às partes. Será, antes,
tacteante e lúcida,
a constatação
de que sempre o todo foi senão
soma de partes nunca compatíveis.
Nenhuma, sequer, consigo mesma)
e as letras sombra.
8.3.26
4.3.26
3.3.26
Adultério doméstico
De quem era o corpo
que tinha na cama.
Nem quanto ao seu estava segura.
De quem era o nome, o peso,
a baba em que lhe tinham
esmagado o coração.
Uma lama grumosa como coalho,
hábito, vício, vocação de coisa
quotidiana.
Aprendera a limpar-se, a desfazer
a cama e mudar os lençóis.
Saberia usar-se como
se também essa fosse uma tarefa que
alguém lhe atribuíra. Como se fosse
paga, fim e função, peça a peça até
perfazer um corpo
2.3.26
1.3.26
28.2.26
27.2.26
a. C. / d. C.
sem chegar a compreender,
que tudo o que estava antes
fora transformado pelo que viera depois,
e que antes e depois não eram advérbios
de tempo,
não eram êxtases temporais,
mas o nome das válvulas que devolviam
aos pulmões e ao coração
o sangue venoso da respiração da carne
(entre 40 e 50 mm Hg, aproximadamente
52 por cento em volume. Dióxido de carbono).
Mas talvez
não houvesse o que purificar e o ar
lhe devolvesse, azedo, o mesmo veneno.
Prolongava a apneia.
25.2.26
18.2.26
15.2.26
Mitologias
Conta-se como
(número de Fevereiro da Gardens Illustrated,
texto de James Horner, fotografia de
Richard Bloom) Umberto Pasti,
escritor italiano a viver em Tanger,
adormecera há um quarto de século,
sob uma figueira
numa colina sobranceira ao mar.
Ao acordar, olhara em volta e vira
o que havia a fazer. Comprara
as terras áridas e ao longo das décadas
construíra um jardim.
Caminhos abertos, muros erguidos,
árvores transplantas à força de mulas.
As plantas prosperavam.
Abundavam as espécies nativas,
os Iris tingitana, os Iris filifolia,
os Narcissus obsoletus. As suculentas vindas
do outro extremo de África
ou do lado de lá do Atlântico.
Como todos os mitos, a história tinha tanto
de verdade como de efabulação,
de registo como de prescrição.
De promessa, de facto. Uma forma de moral.
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