14.6.21

Privação


Parecia-lhe por vezes 
(quando se sentava, à noite,
na borda do colchão, sem saber onde
faria mais frio, se dentro, se fora,
se na carne, se na cama)
que o cheiro a urina que
se soltava da saia
era o único indício de intimidade. 
O peso de um outro por dentro do corpo,
um hábito, um uso, 
uma forma física de penetração.
Não perguntava quem penetrava quem.




31.5.20

Scale threshold



Haveria um momento (ignorava qual, quando,
se aconteceria ou se era apenas uma possibilidade
do regime de troca de bens e de serviços,
de acumulação de corpos e de conhecimento),
haveria um momento, pois, em que o tempo
(o outro nome para aquilo que não controlava,
a dor, a existência dos outros,
o desejo, o dinheiro, tudo o que construía
o mundo do lado de lá da janela
e tudo o que a habitava do lado de cá:
as palavras que se prendiam à boca
e o vazio que lhe insuflava a saia)
haveria um momento, então, em que o tempo,
a época, a idade
a forçariam a ser o que nunca fora.




30.11.16


Spear-won land


A boca, a cona, o pensamento.