8.5.26

Louise Glück


E então tão próxima
que lhe parecia
poder tocar naquilo
que acabara de abandonar,
corpo ou coração.
Ficaria onde ficara
— preferia não ter memória
a confundi-la com
o que ouvia em volta.
Via que apontavam para si,
sem se darem conta de
que havia um vazio nesse lugar.
Nos olhos, na boca, no peito.
Ou mais abaixo ou onde
quer que alguém tivesse tocado.



5.5.26

Fecundidade


A orgia ritual, acrescenta
Mircea Eliade, em proveito das colheitas
tem igualmente um modelo divino:
a hierogamia
do Deus Fecundador com a Terra-Mãe.
A opulência das mulheres e a das colheitas
fariam corpo com não sabia que lama,
que massa em movimento a deslocar-se
de onde
para onde, de quem para quem
— quem se abria, quem penetrava,
como fecundava, como concebia.
Registava-a, mas não faria sua
a fertilidade agrária,
nem se perguntava se era a humanidade
que imitava o mundo, se era o mundo que,
na multiplicação de mitos,
imitava a multiplicação dos corpos,
sem corpo que não fosse
parte de outro corpo,
sem nome que não fosse expressão ínfima
do nome. Mas, a ter um corpo,
preferia-o pagão, do lado de lá de lugar
nenhum, carne que era carne,
desejo do desejo, sem regra, narrativa
ou ameaça de aniquilação.
E o que quer que fosse (não lhe daria
um nome que se acrescentasse
aos outros nomes)
seria só seu, de si para si, a sós,
sem sequer corpo que a repelisse.




3.5.26

Dia da Mãe


A mulher, escreve
Mircea Eliade em O sagrado e o Profano,
está, pois, misticamente
solidarizada com a Terra,
o dar à luz apresenta-se como
uma variante, à escala humana,
da fertilidade telúrica. Lugar de origem,
cada nascimento
repetiria o momento da criação,
aquele no qual, quaisquer que os mitos
de diferentes povos, a Terra teria
parido a humanidade das suas entranhas,
aquele no qual (com ou sem
presença masculina — a partenogénese
seria comum) do fundo da terra
nasceriam mundo e humanidade.
Mas para tal, depressa os homens
tinham compreendido, seria necessário
rasgar-lhe o ventre, sagrado só
o bastante para ser profanado.




1.5.26

Formas organizadas de manipulação


Um negócio,
a carne e o coração. Não haveria moeda
nem preço afixado, mas todos o conheciam.
O que comprar, o que vender,
quais as margens de lucro.
A economia de mercado antecedia
o capitalismo (não porque fosse mais fácil
imaginar o princípio do mundo
do que o princípio do capitalismo,
mas porque a dificuldade era imaginar
este mundo sem este capitalismo)
porque com o hábito o uso se transforma
no critério íntimo de cada coisa.
Usar e ser usada
ou apenas usar, sem género nem número.
Comprava quem podia, o que podia,
o resto roubava-se
como quem pede ao tempo autorização para o trair.




24.4.26

Patologia


Conseguia ler as palavras,
mas
não compreendê-las. Ou
conseguia compreendê-las,
uma a uma e uma depois da outra,
mas não o seu sentido
— o que faziam elas
ali alinhadas
como cordeiros a caminho
do matadouro? E de quem era
a mão, a faca?
De quem era a garganta?





23.4.26

Se não ela, ela, se não esta, outra, como se isso a que chamava corpo uma versão


Ainda herdeira da tradição crítica,
interrogava-se
até quando poderia manter a ficção
da neutralidade, a fraude do juízo
objectivo e da possibilidade
(hierárquica e intransigente,
dicotómica e selectiva
— uma posição de poder
da qual não queria
prescindir. Talvez não tivesse
direito a outra) de distinguir
o verdadeiro do falso, a realidade
da aparência. Sabia de si própria
ocupar à vez as duas posições,
sujeito e objecto, olho e mão como
quem faz casa em quartos alugados.
Uma coisa comum,
feia e suja como um final feliz.




21.4.26

Programa


Tomaria as palavras
pelo seu sentido literal.
Não se era não, fome
se era fome,
rejeição se era rejeição.
Cabia-lhe a si aprender mentir.



20.4.26

Leggiadrissima eterna Primavera


Não queria confundir (mas confundia,
e como não? Como ultrapassar séculos
de manipulação, que faziam da vontade
a figura mais fraca da moral?)
a culpa com o corpo. A primeira
discutia-se e argumentava-se,
pesava-se segundo um critério comum,
o outro teria peso, mas nenhum critério
que o ponderasse. A primeira
aceitaria o cálculo e a contabilidade,
o outro prescindia da perda porque
nunca prometera ganhos.
Não queria confundir (e não confundia)
a Primavera com o princípio. Este,
corpo ou culpa,
vinha depois da primeira e chegava já
esmagado pelas suas
próprias promessas. A Primavera
viera antes. Teria corpo, mas não culpa.
Desfizera-se dela antes de lho pedirem.
Tinha as mãos limpas quando bateram à porta.




12.4.26

Hierofania


Como essa coisa amarga
que lhe ocupava a boca.
Erro, falha, fome,
luz mais limpa do que
manhã de Maio.
Olhava em volta mas
bastava-se a si mesma.
Engolia-se com a saliva,
escorria pelo canto
dos lábios,
caía para o peito,
limpava-se com
as costas da mão,
cuspia-se quando
já não se suportava.
Não havia nada
para sentir,
esconder ou mostrar.
Não era língua,
não seria consolação.




30.3.26

Hybris


Excesso e desmedida e gula e avidez
e ambição sem termo nem comparação,
perturbação sem causa, pergunta sem
porquê, e dádiva e graça
e a própria Primavera, causa e porquê,
Eu, porém, digo-vos
(terá dito Cristo,
segundo Mateus, 5:32,
quem quer que tenha sido
o cronista que tomou tal nome,
um homem
numa cadeia de homens, numa moral
de culpa e de punição): todo aquele que
olha para uma mulher
e deseja possuí-la, já cometeu
adultério com ela no coração.
E toda aquela que olha para um homem,
e todo aquele que é humano e animal,
que é corpo e cobiça e fome e desejo
e imaginação
já cometeu pecado como quem come
as pedras que a miséria lhe deu por herança.