11.6.26

Cuando se abre en la mañana


Acerca das flores,
havia alguma coisa a dizer.
Tinha-as semeado, plantado, mas
não sabia se eram suas.
Se elas eram ela ou se era ela quem
lhes pertencia. A quem pertencia a posse,
poderia perguntar.
Se as crianças pertenciam
a quem as concebera, transportara
e parira
ou se a mãe lhes pertencia, a elas, ela
que via como a filha olhava em volta
com a confiança, mas o medo,
de quem traz o mundo no fundo do ventre.
Prosseguia, porém,
como se cada coisa, casa, herança e filiação,
não se acumulasse contra a carne,
olhos e os ossos,
numa revolta de anos e de subtracção.
Primeiro o sangue, depois o tempo e depois
o nome, que as gerações não retêm.




5.6.26

Distúrbio do luto prolongado


Marjane Satrapi est morte de tristesse
un peu plus d’un an après
le décès de Mattias Ripa,
son mari et l’amour de sa vie,
escreve a família, em comunicado.
¿Es posible morirse de pena?,
pergunta o El País, interrogando-se se,
para lá do mito romântico,
existirá suporte científico para
o morrer da perda,
o desistir diante
do que não tem depois
e não é senão
a perda que se soma à perda
até que
nem nome nem memória
se distingam do nosso nome.
A resposta (porque há resposta para
quase tudo,
explica-se, nomeia-se, enquadra-se
no quadro clínico, pesa-se, mede-se, 
medica-se)
fala da norma e da excepção, do vínculo,
da solidão e da fragilidade afectiva.
O coração partido é muitas vezes,
só e apenas, o sombrio e fundo
nome do tempo. Não haverá depois.




2.6.26

Estados Alternados de Satisfação


Seria sugestivo, mas sugeria mais
do que pretendia. Pareceria promíscua.




28.5.26

Damnatio memoriae


Não bastaria confiar no tempo,
era preciso produzi-lo. Esquecer
o que pudesse ser esquecido,
rasurar o resto. Apagar, omitir.
Ao que sobra,
dar-lhe o destino do lixo indiferenciado,
que os camiões recolhem, transportam
e acumulam no aterro sanitário.
Sobrepõe-se,
camada após camada, soterra-se,
compacta-se e decompõe-se
sob acção das bactérias. Primeiro,
os resíduos orgânicos (os corpos,
se quisermos), depois o papel
(décadas, diz-se), por fim (séculos
sobre séculos), sobram o vidro,
o plástico e alguns metais. Com o tempo,
o volume abate. Depois de selado
e esquecido, no aterro,
a decomposição prossegue
de forma impiedosa.
Pois a piedade, todos o sabem,
não é um atributo dos corações sensíveis.
E a fealdade é sempre figura do belo.





25.5.26

A vida sexual das mulheres casadas II


Mas a mais absurda
(haveria outras, não as conhecia),
firme e forçada defesa da fidelidade feminina
talvez fosse a Helena, de Eurípides.
Nesta tragédia, em lugar de ser seduzida
por Páris (parece que poucos,
na história,
terão ponderado a possibilidade inversa) e
por ele arrastada para Ílion,
Helena será conduzida ao Egipto,
onde dez anos
aguarda que Menelau, seu esposo,
vitorioso de Tróia, a venha resgatar
de regresso a Esparta.
Para Páris,
nunca houve senão um eidolon,
uma imagem forjada (trabalho de Hera,
por despeito),
tão sem existência quanto um fantasma.
Os rios de sangue, o cerco e a destruição
da cidadela sagrada
não seriam senão efeito da fraude
de uma figura em forma de mulher.
Nem a Helena é dado ser infiel.
A verdadeira mulher (a única, note-se)
é sóbria e fiel, e não tem corpo
senão para o homem legítimo.




22.5.26

A vida sexual das mulheres casadas


Em cada mulher, as mulheres,
em cada homem, os homens,
e em cada um nenhum.
Seria saber em que lugar aquilo
que é acidente
se transforma em natureza,
a ameaça, em amputação e isso
que se acumula contra o corpo como
o calor da carne
que não pertence.
Produz o hábito, transforma-se nele,
sem prometer sequer o prometido.
Sabia-se usada, saberia usá-lo
(conhecia o preço, aceitava pagar.
ignorava quem é que ele via
quando fechava os olhos, 
o que é que ela própria)
noite a noite menos
um e outro (ela e ele ou
um terceiro que nenhum já era)
a fazerem do outro
uma figura de substituição.
A cama como um cemitério,
ouvira dizer,
e o próprio corpo pouco
mais do que mortalha,
os lençóis, a pele,
o nome que pudesse apagar da pedra.




21.5.26

O poeta maldito (sim, esse)


Na maior parte, reportava-se
precisamente
ao dizer. Não ao maldizer
(a blasfémia, o esconjuro, a maldição,
a calúnia, o que se quisesse),
mas ao dizer mal.
Conhecia uns quantos com pretensões.
Sobrava em pose o que faltava em
meios.
Toscos e escassos no uso da língua.





14.5.26

Olhos nos olhos


Um pequeno infinito.
Tinha princípio, tinha fim, mas não tinha duração.
Prometia-lhe tudo o que pudesse prometer,
iria cumpri-lo — não conhecia outra forma de desespero.




11.5.26

Afasia


Talvez então tivesse
o que dizer, ou não o que dizer,
mas como,
a coragem de mentir
com tal honestidade que a língua
se colasse às coisas que,
quando a arrancasse,
arrastasse a carne e o mundo,
pedra após pedra.
Viu que se calava, acenando sempre,
palavra após palavra,
para parecer que compreendia.




8.5.26

Louise Glück


E então tão próxima
que lhe parecia
poder tocar naquilo
que acabara de abandonar,
corpo ou coração.
Ficaria onde ficara
— preferia não ter memória
a confundi-la com
o que ouvia em volta.
Via que apontavam para si,
sem se darem conta de
que havia um vazio nesse lugar.
Nos olhos, na boca, no peito.
Ou mais abaixo ou onde
quer que alguém tivesse tocado.



1.5.26

Formas organizadas de manipulação


Um negócio,
a carne e o coração. Não haveria moeda
nem preço afixado, mas todos o conheciam.
O que comprar, o que vender,
quais as margens de lucro.
A economia de mercado antecedia
o capitalismo (não porque fosse mais fácil
imaginar o princípio do mundo
do que o princípio do capitalismo,
mas porque a dificuldade era imaginar
este mundo sem este capitalismo)
porque com o hábito o uso se transforma
no critério íntimo de cada coisa.
Usar e ser usada
ou apenas usar, sem género nem número.
Comprava quem podia, o que podia,
o resto roubava-se
como quem pede ao tempo autorização para o trair.




21.4.26

Programa


Tomaria as palavras
pelo seu sentido literal.
Não se era não, fome
se era fome,
rejeição se era rejeição.
Cabia-lhe a si aprender mentir.