Mas a mais absurda
(haveria outras, não as conhecia),
firme e forçada defesa da fidelidade feminina
talvez fosse a Helena, de Eurípides.
Nesta tragédia, em lugar de ser seduzida
por Páris (parece que poucos,
na história,
terão ponderado a possibilidade inversa) e
por ele arrastada para Ílion,
Helena será conduzida ao Egipto,
onde dez anos
aguarda que Menelau, seu esposo,
vitorioso de Tróia, a venha resgatar
de regresso a Esparta.
Para Páris,
nunca houve senão um eidolon,
uma imagem forjada (trabalho de Hera,
por despeito),
tão sem existência quanto um fantasma.
Os rios de sangue, o cerco e a destruição
da cidadela sagrada
não seriam senão efeito da fraude
de uma figura em forma de mulher.
Nem a Helena é dado ser infiel.
A verdadeira mulher (a única, note-se)
é sóbria e fiel, e não tem corpo
senão para o homem legítimo.