30.3.26

Hybris


Excesso e desmedida e gula e avidez
e ambição sem termo nem comparação,
perturbação sem causa, pergunta sem
porquê, e dádiva e graça
e a própria Primavera, causa e porquê,
Eu, porém, digo-vos
(terá dito Cristo,
segundo Mateus, 5:32,
quem quer que tenha sido
o cronista que tomou tal nome,
um homem
numa cadeia de homens, numa moral
de culpa e de punição): todo aquele que
olha para uma mulher
e deseja possuí-la, já cometeu
adultério com ela no coração.
E toda aquela que olha para um homem,
e todo aquele que é humano e animal,
que é corpo e cobiça e fome e desejo
e imaginação
já cometeu pecado como quem come
as pedras que a miséria lhe deu por herança.




18.3.26

Disponibilidade


Aceitaria o simulacro.



12.3.26

Teoria do poder


Pôr uma porta na boca das fêmeas
(feminina, na tradução da Tatiana Faia 
— estará mais correcto,
mas é menos eficaz,
o feminino não é animal o suficiente,
sujo o suficiente. Agressivo,
se tiver de ser)
tem sido um importante projecto
da cultura patriarcal
desde a antiguidade até ao presente, escreve
Anne Carson. O som da voz
das mulheres seria ofensivo, como ofensivo
tudo aquilo que elas expelem do corpo.
As vergonhas guardam-se
debaixo da saia,
os olhos, debaixo das pálpebras,
a ignorância, debaixo da língua.
Uma exigência legítima. Manda quem pode
e pode quem manda.
Era uma norma de civilização.
Uma porta na boca, pois, uma porta nas coxas,
e guardar a chave por entre as pernas – as deles.




11.3.26

Evol (Adrianne Lenker)


Saberia soletrar,
sílaba a sílaba,
até que o som tivesse
perdido o peso
(Mas a desconstrução,
diria Derrida,
não é o movimento superveniente
de decompor o todo, devolvendo-o
às partes. Será, antes,
tacteante e lúcida,
a constatação
de que sempre o todo foi senão
soma de partes nunca compatíveis.
Nenhuma, sequer, consigo mesma)
e as letras sombra.



8.3.26


Biblical Reasons

Lamentava ter
de lho dizer (não lamentava,
de facto,
mas o lugar-comum
servia de pausa para respirar.
Adiava, ainda que não evitasse.
Aquilo que tinha para
lhe dizer não se dizia a ninguém.
Também ela não o faria.
Não suportava eufemismos),
mas acabara por compreender.




4.3.26


This is how we do it:

A quarenta e sete quilómetros
de distância, lado a lado
na cama conjugal,
cada um com outra pessoa.




2.3.26


Romance

Tinham-lho prometido.
Séculos de poesia, canções, 
fábulas e enlevos.
Mas era mais prosaico.
Apenas uma oportunidade
e casada para o resto da vida.
Apenas um gesto,
um sim,
e depois o corpo por décadas adiante,
na mesma fome de ventre fértil
de quem já pariu mais do que a morte
pode permitir.




1.3.26


Inibição

Agradecia-lhe a pergunta.
Pedia agora que
lhe ditasse a resposta.
Não tinha outra e,
como a própria vida, 
qualquer uma servia.




28.2.26


Véu de noiva

E isso, temia,
a que chamava amor
não seria senão
a figura mais frágil
do desespero.
Teria outros nomes.



27.2.26


a. C. / d. C.

Dava-se conta, 
sem chegar a compreender, 
que tudo o que estava antes
fora transformado pelo que viera depois,
e que antes e depois não eram advérbios
de tempo,
não eram êxtases temporais,
mas o nome das válvulas que devolviam
aos pulmões e ao coração
o sangue venoso da respiração da carne
(entre 40 e 50 mm Hg, aproximadamente
52 por cento em volume. Dióxido de carbono).
Mas talvez
não houvesse o que purificar e o ar
lhe devolvesse, azedo, o mesmo veneno.
Prolongava a apneia.



25.2.26


A solidão das lavandarias

Contra todas as expectativas
(uma frase feita, reconhecia,
mas,
se marcasse as sílabas,
mantinha o ritmo, na rima interna
e na aliteração em t) contra todas
as expectativas, pois,
talvez não tivesse vindo em vão.




15.2.26


Mitologias

Conta-se como
(número de Fevereiro da Gardens Illustrated,
texto de James Horner, fotografia de
Richard Bloom) Umberto Pasti,
escritor italiano a viver em Tanger,
adormecera há um quarto de século,
sob uma figueira
numa colina sobranceira ao mar.
Ao acordar, olhara em volta e vira
o que havia a fazer. Comprara
as terras áridas e ao longo das décadas
construíra um jardim.
Caminhos abertos, muros erguidos,
árvores transplantas à força de mulas.
As plantas prosperavam.
Abundavam as espécies nativas,
os Iris tingitana, os Iris filifolia,
os Narcissus obsoletus. As suculentas vindas
do outro extremo de África
ou do lado de lá do Atlântico.
Como todos os mitos, a história tinha tanto
de verdade como de efabulação,
de registo como de prescrição.
De promessa, de facto. Uma forma de moral.




14.2.26


Habitar-lhe o ventre

Havia um vazio nas dobras do mundo.
Seria o seu lugar.