22.5.18

Maio de dois mil e dezoito




Contra quanto tinham por evidência,
já não duvidava
que isso a que insistiam em chamar poesia
há muito não passava da ocupação torpe
de velhos e de adolescentes. Mulheres
de rugas fundas e peito caído, miúdas
de pele escamada e olhos também eles
envelhecidos. Homens humilhados,
a segurarem as calças e a cobrirem
com palavras a sua impotência.
De si mesma, suspeitava que entre
a puberdade e a menopausa
nem uma só página a faria fértil.





13.4.18


Avec le temps



Via em volta como
os melhores da sua época
se iam corrompendo num conservadorismo
sem consciência. Confundiam a crítica com
a desilusão e mediam o mundo com os critérios
da geração anterior.
Dariam por eles, se ainda lhes restasse lucidez,
apontados a dedo pela geração seguinte.
Esta, nem melhor nem pior,
era apenas diferente, ajustada a um tempo
que era sempre outro. Demoraria ainda
até que também ela
medisse o mundo
com os critérios da geração anterior.






30.3.18


A glória da Casa de Este


Havia uma coisa que não compreendia
(haveria
muitas coisas que não compreendia, não
o ignorava, mas daquela dava-se conta):
como é que acabara ali?
Estava a afundar-se,
via-o,
dia após dia, sem mover uma mão,
um pé, uma palavra. Caminhava na lama
e a lama era mais do que a mistura de terra com água,
era a mistura do tempo com as imagens, das coisas
com as palavras,
da carne com a fome que a sugaria.
E a lama (anagrama de alma, era evidente, não
exigia nenhuma exegese) não permitia mais
do que patinhar sobre o seu próprio sangue.
Seria aceitável, a queda, se alguma coisa antes,
algo depois (o corpo, a voz, a sombra),
pudesse permanecer no lugar do embate.
Se o chão, o solo, a terra, o pavimento,
não a engolisse como engole a água.






23.3.18



Concordância de género


Por detrás de cada grande homem,
ouvira dizer,
estava sempre uma grande mulher. Por detrás
de cada grande mulher, seria provável,
haveria sempre um grande homem.
Olhava em volta e não via nenhum,
nem antes nem após.
Ninguém para a empurrar, ninguém
atrás de quem se pudesse esconder.
Era apenas ela,
tão crua quanto a roupa que tinha despido.
Baça, suja e sem
valer o trabalho de a apanhar do chão.

(Ou talvez,
e esse seria o seu problema,
não houvesse nela nada de grande.
Nem as mãos, nem as mamas,
nem a boca, nem a cona,
nem o tempo, nem a escrita.
A mediocridade, sabia-se,
tem-se sempre a si mesma
como termo de comparação.)




21.3.18


Enjambement

Demorara a compreender de quem
eram as pernas.
Se as suas, flexíveis e receptivas,
se as deles, duras como alavancas a
moverem o mundo.





13.3.18


Da oferta e da procura


Supunha, simplesmente (e simplesmente
era aqui um recurso retórico, não havia nisto
nada de simples), supunha, pois, que pese embora
séculos de instrução, décadas de emancipação (as quais,
de forma desigual, haviam feito do corpo das fêmeas
um espaço de disputa e de conflito), não lhe sobrava senão
olhar em volta e aceitar as regras. As do mercado (que
regulam os corpos e os valores) e as da carne (que
regulam a fome e a satisfação).
Quem define a lei, sabia-o (fora à escola, tinha lido
três livros, alguma coisa teria aprendido),
produz a perversão.
Quem aceita o jogo, temia-o, assume como sua a punição.
Não o contestaria.





7.3.18


Diagnóstico


A poesia,
sabia-se,
é uma patologia própria da idade.
Manifesta-se aos quinze, dezasseis,
e aos vinte atinge um pico de virulência.
Depois, nuns desaparece sem deixar marcas,
noutros transforma-se numa doença crónica.
Suporta-se, por vezes com dor, mas não
compromete as actividades quotidianas.
Nos casos mais agudos,
raros e pouco esclarecidos,
pode incapacitar de forma irreversível.
Há perigo de contágio, mas não são claros os indícios
quanto
aos riscos de transmissão por hereditariedade.
Por precaução,
aconselha-se a manter os filhos afastados
das fontes de contaminação.





3.3.17

30.11.16


Spear-won land


A boca, a cona, o pensamento.