A orgia ritual, acrescenta
Mircea Eliade, em proveito das colheitas
tem igualmente um modelo divino:
a hierogamia
do Deus Fecundador com a Terra-Mãe.
A opulência das mulheres e das colheitas
fariam corpo com não sabia que lama,
que massa em movimento de onde
para onde, de quem para quem
— quem se abria, quem penetrava,
como fecundava, como concebia.
Registava-a, mas não faria sua
a fertilidade agrária,
nem se perguntava se era a humanidade
que imitava o mundo, se era o mundo que,
na multiplicação de mitos,
imitava a multiplicação dos corpos,
sem corpo que não fosse
parte de outro corpo,
sem nome que não fosse expressão ínfima
do nome. Mas, a ter um corpo,
preferia-o pagão, do lado de lá de lugar
nenhum, carne que era carne,
desejo do desejo, sem regra, narrativa
ou ameaça de aniquilação.
E o que quer que fosse (não lhe daria
um nome que se acrescentasse
aos outros nomes)
seria só seu, de si para si, a sós,
sem sequer corpo que a repelisse.