17.8.18

Negação da negação



Tão simples quanto complexo,
na língua,
ter havido dizer não era garantia de verdade.
Pouco lhe importava o que outros
teriam dito. Pouco lhes importaria o que ela
tivesse a dizer.
Escrever ou não escrever (ler ou não ler)
equivaliam-se como as duas faces
de uma moeda fora de circulação.




15.8.18

Negação



Como em qualquer sistema complexo,
na língua,
as possibilidades de acção eram função
do domínio dos procedimentos.
O que se dizia crescia na proporção directa
da complexidade do uso.
Heranças e aprendizagens abriam
nas palavras o breve e ameaçado espaço
de construção do mundo.



13.8.18

Afirmação



Como em qualquer sistema complexo,
na língua,
a possibilidade do erro era directamente
proporcional à complexidade do uso.
Quanto mais escrevia,
maior a probabilidade
de que não dissesse o que pretendia, ou,
dizendo-o, de descobrir que não
havia nada para dizer.



9.8.18

Terapia da fala



Não pediria a nenhuma palavra que dissesse o
que ambas ignoravam.
Levantaria a voz, mas
falaria apenas o tempo indispensável
para permitir que alguém a mandasse calar.
Baixaria os olhos
e aceitaria a censura:
nunca ninguém diz nada
que ouvidos surdos não possam ouvir.

(quanto aos que agora exigiam que se calasse,
os mesmos que a aceitavam
enquanto não passava de uma fêmea amável,
a quem aproveitavam para espreitar o decote
e com quem podiam ser benevolentes,
será que se ouviriam a si mesmos?
leriam o que eles próprios escreviam?
conseguiriam não corar de vergonha?)




3.8.18

Opus Caementicium



Reconhecer as ruínas, dar-lhes um nome,
um uso, uma função,
sabendo (supondo, desejando, temendo)
que por detrás do tempo somente tempo,
e depois deste apenas a promessa da derrocada.




24.5.18


O tempo, a carne e outras figuras da imaginação


Sem querer confundir as coisas
com as explicações que delas ouvia
(se as primeiras eram medíocres, as segundas
apenas insignificantes),
notava como cada época tendia a medir
os actos públicos pela moral privada,
e os actos privados pela moral pública.
Calculavam, na cama, o que mal
caberia no meio da rua, avaliavam, na praça,
o concavo das coxas e o movimento dos quadris.
A mesma moral
(ética, decoro, decência, ou seja, uma forma de higiene)
deveria reger
o interior dos corpos e o exterior da história.
Em ambos, a obrigação de purgar os olhos
e a língua, o pensamento e as mãos,
a carne e as representações.
O que não se lavasse deveria ser escondido:
por detrás
da roupa, por detrás dos olhos,
por detrás
de todas as figuras da
imaginação.

(E isto talvez constituísse o ponto de partida para
uma teoria da arte.
Esclareceria,
no mínimo, a improvável persistência das palavras
no século das imagens.
A improvável opacidade das imagens
no tempo de toda a visibilidade).




22.5.18



Maio de dois mil e dezoito


Contra quanto tinham por evidência,
já não duvidava
que isso a que insistiam em chamar poesia
há muito não passava da ocupação torpe
de velhos e de adolescentes. Mulheres
de rugas fundas e peito caído, miúdas
de pele escamada e olhos também eles
envelhecidos. Homens humilhados,
a segurarem as calças e a cobrirem
com palavras a sua impotência.
De si mesma, suspeitava que entre
a puberdade e a menopausa
nem uma só página a faria fértil.





30.3.18


A glória da Casa de Este


Havia uma coisa que não compreendia
(haveria
muitas coisas que não compreendia, não
o ignorava, mas daquela dava-se conta):
como é que acabara ali?
Estava a afundar-se,
via-o,
dia após dia, sem mover uma mão,
um pé, uma palavra. Caminhava na lama
e a lama era mais do que a mistura de terra com água,
era a mistura do tempo com as imagens, das coisas
com as palavras,
da carne com a fome que a sugaria.
E a lama (anagrama de alma, era evidente, não
exigia nenhuma exegese) não permitia mais
do que patinhar sobre o seu próprio sangue.
Seria aceitável, a queda, se alguma coisa antes,
algo depois (o corpo, a voz, a sombra),
pudesse permanecer no lugar do embate.
Se o chão, o solo, a terra, o pavimento,
não a engolisse como engole a água.






23.3.18



Concordância de género


Por detrás de cada grande homem,
ouvira dizer,
estava sempre uma grande mulher. Por detrás
de cada grande mulher, seria provável,
haveria sempre um grande homem.
Olhava em volta e não via nenhum,
nem antes nem após.
Ninguém para a empurrar, ninguém
atrás de quem se pudesse esconder.
Era apenas ela,
tão crua quanto a roupa que tinha despido.
Baça, suja e sem
valer o trabalho de a apanhar do chão.

(Ou talvez,
e esse seria o seu problema,
não houvesse nela nada de grande.
Nem as mãos, nem as mamas,
nem a boca, nem a cona,
nem o tempo, nem a escrita.
A mediocridade, sabia-se,
tem-se sempre a si mesma
como termo de comparação.)




21.3.18


Enjambement

Demorara a compreender de quem
eram as pernas.
Se as suas, flexíveis e receptivas,
se as deles, duras como alavancas a
moverem o mundo.





13.3.18


Da oferta e da procura


Supunha, simplesmente (e simplesmente
era aqui um recurso retórico, não havia nisto
nada de simples), supunha, pois, que pese embora
séculos de instrução, décadas de emancipação (as quais,
de forma desigual, haviam feito do corpo das fêmeas
um espaço de disputa e de conflito), não lhe sobrava senão
olhar em volta e aceitar as regras. As do mercado (que
regulam os corpos e os valores) e as da carne (que
regulam a fome e a satisfação).
Quem define a lei, sabia-o (fora à escola, tinha lido
três livros, alguma coisa teria aprendido),
produz a perversão.
Quem aceita o jogo, temia-o, assume como sua a punição.
Não o contestaria.





7.3.18


Diagnóstico


A poesia,
sabia-se,
é uma patologia própria da idade.
Manifesta-se aos quinze, dezasseis,
e aos vinte atinge um pico de virulência.
Depois, nuns desaparece sem deixar marcas,
noutros transforma-se numa doença crónica.
Suporta-se, por vezes com dor, mas não
compromete as actividades quotidianas.
Nos casos mais agudos,
raros e pouco esclarecidos,
pode incapacitar de forma irreversível.
Há perigo de contágio, mas não são claros os indícios
quanto
aos riscos de transmissão por hereditariedade.
Por precaução,
aconselha-se a manter os filhos afastados
das fontes de contaminação.





3.3.17

30.11.16


Spear-won land


A boca, a cona, o pensamento.