10.7.24

Inversão do ónus da prova


Sabia-se culpada
(responsável, comprometida, implicada,
envolvida, criminosa, transgressora,
censurável, censurada sem absolvição
— fazia notar a sobrecarga de adjectivos)
até prova em contrário.

Não tinha nenhuma.
Movia-se na noite e tinha
as mãos pregadas às tábuas da lei.





4.7.24


Regras da moral provisória

— Não ter, não fazer, não desejar,
não temer, não acreditar, aos quarenta,
nada que envergonhasse a sua
pessoa de vinte.
(Ou seria a vergonha
a manifestação atávica e insidiosa
da moral
de culpa e de contrição que,
precisamente,
aos vinte anos jurara rejeitar?
Seria ainda uma forma sórdida de submissão
ao hábito do remorso e do ressentimento?)
— Não ceder, não contemporizar,
não transigir sequer consigo mesma.




28.6.24


Literatura, exame post mortem

Agia (assumia a sua ingenuidade,
mas era mais, ameaçava idiotia,
a inocência lerda de quem acredita
que os outros são capazes
de acreditar,
de quem entrega as mãos, os olhos
e o melhor dos anos, olhos nos olhos
da apatia) como se ainda existisse
isso que aprendera a designar por
literatura.
Pudesse existir, ao menos,
como existem 
os corpos para autópsia e dissecação.
Cadáveres, carcaças nas quais
se reconhecem restos de humanidade,
órgãos, tecidos,
um rasto de alma antes
de se afundar no escuro.






27.6.24


Romantismo e escatologia

 A noite inteira a tosse
como se transitasse dos mortos
para os vivos, destes para os primeiros,
sem encontrar casa ou língua
no corpo ou na boca de ninguém.
Horas e horas a expelir o ar 
(Le plus possible, le mieux possible,
le plus vite possible, se débarrasser
de l’écriture. — Ainda Derrida,
Le Calcul des Langues)
como se expulsasse uma a uma
as sílabas do seu nome próprio.
Desviava os olhos e repetia,
rouca, que a boca toda se
dissolvia em sangue,
tacteando os dentes, no pânico
de quem tacteia um túmulo.
Encontrava noite e sombra, e a
garganta seca de quem se afoga
na sua própria respiração. 









18.6.24


Anónima como os nomes que lia nos livros — os das mulheres

Teria de se assegurar
do direito a mentir. Do direito, de facto,
à sua verdade.
Não à sua versão da verdade,
mas à sua forma (física e verbal,
sensível e moral, caindo no corpo
como na infância os ovos
lhe escapavam das mãos, 
e como agora os óvulos
se escapavam  do ventre,
removidos em sangue, segundo
o hábito)
de ver a verdade. De a desmentir
com toda a convicção. Não media os meses,
não contava os anos, não teria outro nome
que não o que a si mesma reconhecesse.
Era essa a sua esterilidade.
Não teria descendência. Não haveria memória.





30.5.24


Padrões de motricidade animal

E se (era uma interrogação recorrente,
como se com ela pudesse averiguar
o que era e o que não era — e aquilo que,
não sendo, talvez a comprometesse),
e se não tivesse nascido bípede,
com o sexo encaixado na intersecção
das coxas,
mas com ele algures no extremo
dos quadris,
como os outros mamíferos,
a vulva apenas protegida pela cauda
e exposta sem pudor
ao nojo ou ao desejo
de machos e de fêmeas,
fazendo com que, ao movimentar-se,
não se limitasse a oscilar as nádegas,
mas, mais evidente, oferecesse
os quartos traseiros,
opostos à cabeça que baixava para o pasto.
Onde é que os seus passos a conduziriam?
E as víboras?







16.4.24


Lançamento de livro

Aconselhava o sétimo piso.
Havia uma varanda. Dava
para o pátio das traseiras
— não era provável que 
atingisse alguém.
Quanto ao autor (a autora?),
recomendava cuidado,
não fosse também ele
arrastado na queda.
Já tinha acontecido.
Prevenia-o,
mas não o lamentaria.
Não faltavam outros como ele.




5.4.24


Superlativo relativo de superioridade

De quanto há aí dotado de vida e de razão,
somos nós, as mulheres, a mais mísera criatura
(Medeia, Eurípides, na tradução da
Maria Helena da Rocha Pereira
— pagava uma dívida com
a inscrição do nome desta mulher).
Notava a transição
da primeira pessoa do plural
para o singular do artigo definido.
Nós, as mulheres,
somadas numa mesma natureza,
a mais mísera,
no fundo do fundo da miséria.
A mais, aquela a quem
nem vida nem razão poderiam redimir.
E o que não cabe no corpo, mas cabe
na culpa, não caberá sequer
entre a carne das coxas.
Não para penetrar.






30.3.24


Marriage, cast and script

Talvez, se lhe pagassem para
ser mulher,
aceitasse o papel que lhe propunham.
Filme infantil, 
comédia romântica
ou arremedo trágico
da banalidade. Drama de época,
vítima eleita,
tragédia sem sangue, amor sem culpa.
Mostraria o que tivesse de mostrar.
Corpo. Coração.
Os órgãos expostos por baixo da pele.
Prometia prazer, declarava dor.
Era trabalho, deveria ser remunerado.
Aceitaria negociar.
E talvez, se lhe pagassem, pudesse evitar
abrir as veias na água do banho do bebé.




28.3.24


Xenos

Ela própria, os pés presos ao pó,
alheia à língua,
aos hábitos e aos espelhos.





31.12.23


Baixeza moral

Dividir o mundo
e escolher a parte do poder.