28.11.19

Gardens of Italy



Nada. Beijos ou gestos,
preces, promessas, confissões, contrapartidas,
o que não era carne, nem cama, nem
o que um pedia o outro proibia,
nem quem autorizava (porque ninguém
autoriza sem antes proibir, séculos inteiros),
mas tudo isso mais o espaço que permanecia
entre um corpo e os outros, e os olhos presos
ao contorno não sabia de quem, à noite,
no comboio,
mas presos primeiro, desviados depois,
o rosto recuado de ressentimento.




14.11.19


Handle with care II

Havia uma alma por baixo da pele.
(Ou um coração, ou uma vida,
ou uma ferida aberta por dentro da saia.)




12.11.19


Handle with care


Não rasgar ao menos sem aviso prévio.
(Não rasgar, não bater, não matar, não mutilar.
Nenhum corpo é sagrado, mas a profanação é irrevogável.)



7.11.19


Estética relacional

Conhecia os limites.
Os seus, os dos outros.
Um nada
que se somava ao nada
para produzir nada.
E o que restava
da infância depois dos dez,
o que restava das raparigas depois dos vinte, o que
das mulheres depois dos cinquenta,
o que do corpo, o que do tempo quando
como água suja pelos passeios.





29.10.19


Literatura cinzenta

Não se reportava à cor
e evitaria tomá-la por literatura.
Acumulavam palavras, supondo que a soma
seria capaz de se sobrepor às coisas.
Um equívoco.
As coisas e as palavras
eram um lugar frio que não merecia nome
nem admitia designação.





30.11.16


Spear-won land


A boca, a cona, o pensamento.