24.4.26

Patologia


Conseguia ler as palavras,
mas
não compreendê-las, ou
conseguia compreendê-las,
uma a uma e uma depois da outra,
mas não o seu sentido
— o que faziam elas
ali alinhadas
como cordeiros a caminho
do matadouro? E de quem era
a mão, a faca?
De quem era a garganta?




23.4.26

Se não ela, ela, se não esta, outra, como se isso a que chamava corpo uma versão


Ainda herdeira da tradição crítica,
interrogava-se
até quando poderia manter a ficção
da neutralidade, a fraude do juízo
objectivo e da possibilidade
(hierárquica e intransigente,
dicotómica e selectiva
— uma posição de poder
da qual não queria
prescindir. Talvez não tivesse
direito a outra) de distinguir
o verdadeiro do falso, a realidade
da aparência. Sabia de si própria
ocupar à vez as duas posições,
sujeito e objecto, olho e mão como
quem faz casa em quartos alugados.
Uma coisa comum,
feia e suja como um final feliz.




21.4.26

Programa


Tomaria as palavras
pelo seu sentido literal.
Não se era não, fome
se era fome,
rejeição se era rejeição.
Cabia-lhe a si aprender mentir.



20.4.26

Leggiadrissima eterna Primavera


Não queria confundir (mas confundia,
e como não? Como ultrapassar séculos
de manipulação, que faziam da vontade
a figura mais fraca da moral?)
a culpa com o corpo. A primeira
discutia-se e argumentava-se,
pesava-se segundo um critério comum,
o outro teria peso, mas nenhum critério
que o ponderasse. A primeira
aceitaria o cálculo e a contabilidade,
o outro prescindia da perda porque
nunca prometera ganhos.
Não queria confundir (e não confundia)
a Primavera com o princípio. Este,
corpo ou culpa,
vinha depois da primeira e chegava já
esmagado pelas suas
próprias promessas. A Primavera
viera antes. Teria corpo, mas não culpa.
Desfizera-se dela antes de lho pedirem.
Tinha as mãos limpas quando bateram à porta.




12.4.26

Hierofania


Como essa coisa amarga
que lhe ocupava a boca.
Erro, falha, fome,
luz mais limpa do que
manhã de Maio.
Olhava em volta mas
bastava-se a si mesma.
Engolia-se com a saliva,
escorria pelo canto
dos lábios,
caía para o peito,
limpava-se com
as costas da mão,
cuspia-se quando
já não se suportava.
Não havia nada
para sentir,
esconder ou mostrar.
Não era língua,
não seria consolação.




30.3.26

Hybris


Excesso e desmedida e gula e avidez
e ambição sem termo nem comparação,
perturbação sem causa, pergunta sem
porquê, e dádiva e graça
e a própria Primavera, causa e porquê,
Eu, porém, digo-vos
(terá dito Cristo,
segundo Mateus, 5:32,
quem quer que tenha sido
o cronista que tomou tal nome,
um homem
numa cadeia de homens, numa moral
de culpa e de punição): todo aquele que
olha para uma mulher
e deseja possuí-la, já cometeu
adultério com ela no coração.
E toda aquela que olha para um homem,
e todo aquele que é humano e animal,
que é corpo e cobiça e fome e desejo
e imaginação
já cometeu pecado como quem come
as pedras que a miséria lhe deu por herança.