31.3.25

Exame de consciência


Não podia apontar o dedo.
Ela própria,
na devoção descrente e ritual
de quem faz das palavras lugar de trabalho,
não era senão
um epígono da criatividade do Ocidente,
a manifestação atávica do poder normativo
do heteropatriarcado branco - eram estes
os termos, não eram?
Restava-lhe assumi-lo, só,
na rendição vergonhosa que,
como Síndrome de Estocolmo,
a fazia falar a língua do carcereiro,
converter-se aos seus deuses e oferecer-se
na cama. Seria esse o seu sacrifício.