Não bastaria confiar no tempo,
era preciso produzi-lo. Esquecer
o que pudesse ser esquecido,
rasurar o resto. Apagar, omitir.
Ao que sobra,
dar-lhe o destino do lixo indiferenciado,
que os camiões recolhem, transportam
e acumulam no aterro sanitário.
Sobrepõe-se,
camada após camada, soterra-se,
compacta-se e decompõe-se
sob acção das bactérias. Primeiro,
os resíduos orgânicos (os corpos,
se quisermos), depois o papel
(décadas, diz-se), por fim (séculos
sobre séculos), sobram o vidro,
o plástico e alguns metais. Com o tempo,
o volume abate. Depois de selado
e esquecido, no aterro,
a decomposição prossegue
de forma impiedosa.
Pois a piedade, todos o sabem,
não é um atributo dos corações sensíveis.
E a fealdade é sempre figura do belo.