23.6.26

Credo de Niceia II


Demorara a reconhecê-lo, mas este seria 
um dos mais
(faltava-lhe o adjectivo, espantosos, talvez,
mas a quem poderia ele causar espanto?)
textos da literatura ocidental. Ignorava quem
o escrevera, haveria várias mãos,
homens há muito mortos, num sumário
de doutrinas e de dogmas,
espólio da guerra civil
dos primeiros séculos do cristianismo.
Mérito também dos tradutores. Primeiro
no latim, depois nas línguas vulgares.
Não poderia prová-lo, mas o todo do texto, 
ano após ano, a construir cadeias de palavras
na boca dos séculos, moldara quanto
desde então se escrevera. Referia-se ao ritmo,
ao encadeado frásico,
à complexidade conceptual que se transformava
numa cantilena quase sem sentido. 
Estava lá tudo, a trindade,
a natureza do filho de deus, ele próprio deus,
a virgindade de virgem, a ressurreição dos mortos,
a ameaça da punição, a promessa
de um mundo por vir e de um reino que
não teria fim. A forma definitiva da literatura.