Perguntava, contra a evidência
de que ninguém
responderia (mas perguntava a quem,
de facto,
ao Grande Ouvinte das gerações
à procura de um espectador,
mesmo que ele não chegasse a existir?),
perguntava, então,
pelas coisas visíveis. Não acreditava
em nada
que as mãos não pudessem manipular.
Apontar com o dedo,
pelo menos,
no fio da faca que fazia de mão.
Duvidava do resto. Do pai, do filho,
do espírito.
Acreditava no homem e no ventre da mulher,
Deus de Deus, luz da luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.
Não via, não ouvia, mas não havia
o que ver ou o que ouvir.
Credo de Niceia II
Demorara a reconhecê-lo, mas este seria
um dos mais
(faltava-lhe o adjectivo, espantosos, talvez,
mas a quem poderia ele causar espanto?)
textos da literatura ocidental. Ignorava quem
o escrevera, haveria várias mãos,
homens há muito mortos, num sumário
de doutrinas e de dogmas,
espólio da guerra civil
dos primeiros séculos do cristianismo.
Mérito também dos tradutores. Primeiro
no latim, depois nas línguas vulgares.
Não poderia prová-lo, mas o todo do texto,
ano após ano, a construir cadeias de palavras
na boca dos séculos, moldara quanto
desde então se escrevera. Referia-se ao ritmo,
ao encadeado frásico,
à complexidade conceptual que se transformava
numa cantilena quase sem sentido.
Estava lá tudo, a trindade,
a natureza do filho de deus, ele próprio deus,
a virgindade de virgem, a ressurreição dos mortos,
a ameaça da punição, a promessa
de um mundo por vir e de um reino que
não teria fim. A forma definitiva da literatura.
Credo de Niceia III
(Quanto ao que aí não estava,
era o espaço em branco
para preencher.
Serviria de confissão.
No fundo da folha,
a cruz assinalava onde assinar.
Primeiro e último nome.)